Os números saltaram nas manchetes esta semana como se fossem revelação divina. Uma seleção de ações de energia feita por inteligência artificial devolveu 108%, 61% e 60% em janelas que humilham qualquer fundo ativo brasileiro pago a peso de ouro. E o rebanho, sempre disciplinado, começou a repetir em coro que a máquina agora escolhe melhor que o gestor de terno. Quer dizer, escolhe melhor que o quê, exatamente? Que o comitê de investimentos que passa três horas discutindo se o barril de Brent vai a 82 ou 79 dólares, como se soubesse? A comparação não é elogio à máquina, é atestado de óbito do oráculo humano que cobra 2 e 20 para chutar com PowerPoint.
Olha, o que o algoritmo faz não é mágica, é humildade forçada. Ele processa milhões de variáveis sem tentar contar uma história bonita para o cliente, sem precisar justificar a tese no jantar do banco, sem carregar o ego de quem apareceu na capa da revista mês passado. É por isso que acerta mais: porque não finge saber o que ninguém pode saber. O conhecimento que move o preço de uma ação de energia está espalhado em milhões de cabeças, do soldador na plataforma até o comprador chinês fechando contrato de longo prazo, e nenhuma mente central agrega isso melhor que o próprio mercado quando deixado em paz. A máquina apenas escuta o mercado com menos vaidade que o economista.
E aqui entra a parte que ninguém quer discutir, porque incomoda o negócio inteiro. Se um algoritmo bem calibrado bate consistentemente o gestor humano, o que sobra da tese de que precisamos de um exército de reguladores, analistas certificados, comitês de risco e agências públicas para nos proteger do próprio dinheiro? Sobra pouco. Sobra a suspeita, cada vez mais evidente, de que boa parte da estrutura financeira tradicional existe não para gerar retorno, mas para gerar taxa. O emprego que se vê é o do gestor bem pago; o retorno que não se vê é o que ficou no bolso dele em vez de ir para o cotista. Multiplique isso por trinta anos de fundos ativos perdendo para índice passivo e o tamanho do roubo legalizado começa a aparecer.
Tem também a ironia de fundo. Enquanto os governos ocidentais tentam sabotar o setor de energia fóssil com meta climática irrealista, subsídio a moinho de vento que não gira e imposto sobre lucro extraordinário de petroleira, o algoritmo, que não lê editorial de jornal progressista, simplesmente foi lá e comprou as empresas que produzem aquilo que o mundo real ainda consome todo dia ao acordar. A máquina não tem culpa ambiental, não tem constrangimento diplomático, não tem carreira em ONG para proteger. Ela olha oferta, demanda e capital investido, e conclui o óbvio que a diplomacia climática gasta bilhões para negar: o mundo ainda funciona a hidrocarboneto e vai funcionar por décadas. Os 108% são a fatura desse autoengano coletivo.
Convém, ainda assim, guardar o entusiasmo dentro do bolso. Nenhum sistema de seleção, por mais sofisticado, revoga a lei mais antiga do mercado: retorno passado não paga jantar no mês que vem. O que hoje sobe 108% amanhã pode devolver metade quando o banco central resolver fabricar a próxima recessão com juros errados, ou quando algum ministro criativo decidir taxar retroativamente o lucro que a estatística já considerou realizado. O algoritmo é bom porque é frio, mas o ambiente em que ele opera continua manipulado por gente muito quente da cabeça, imprimindo moeda, mudando regra, criando imposto e chamando isso de política pública. A IA identifica oportunidade, ela não neutraliza o confisco.
No fim, o que esses três papéis de energia estão gritando não é sobre inteligência artificial, é sobre inteligência humana artificialmente inflada por décadas de reverência ao especialista credenciado. Quando uma máquina sem MBA, sem coluna na imprensa e sem convite para Davos consegue ler melhor a realidade que a nata do sistema, o problema não é a máquina ter ficado esperta. É o sistema ter ficado bobo de tanto acreditar no próprio marketing. A liberdade de escolher onde colocar o próprio dinheiro sempre foi, e continuará sendo, superior a qualquer curador oficial da racionalidade alheia.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.