Treze ex ministros do Supremo, aposentados com salários que fariam corar um xeique do petróleo, resolveram escrever uma cartinha ao presidente atual da Corte pedindo rigorosa apuração de não se sabe exatamente o quê, contra não se sabe exatamente quem, a respeito de não se sabe exatamente qual episódio. O documento fala em mais aguda crise da história do tribunal, mas se recusa a nomear um único protagonista dessa crise. É como convocar o delegado para investigar um assalto sem informar a vítima, o ladrão, o local nem o objeto furtado. Só o pedido genérico, protocolar, elegante, feito por quem já embolsou o cheque e agora quer lavar as mãos na bacia da posteridade.

Convém que o contribuinte pare um instante e faça a conta miúda que ninguém faz. Cada um desses treze signatários custa ao pagador de impostos, todo santo mês, algo em torno de setenta mil reais em proventos de aposentadoria, sem contar auxílios, penduricalhos, assessores, seguranças e a plêiade de mordomias vitalícias que acompanham o cargo até a lápide. Multiplique por treze, multiplique por doze meses, multiplique por anos de descanso remunerado, e você terá a exata cifra que o brasileiro médio, aquele que acorda às cinco para pegar dois ônibus, financia para que estes senhores tenham o luxo moral de assinar manifestos genéricos sobre a instituição que eles próprios ajudaram a transformar em balcão.

A lógica é implacável e nenhuma retórica de toga a dobra. Se a Corte vive a mais aguda crise da sua história, alguém a colocou lá. Se alguém a colocou lá, esse alguém tem nome, sobrenome, voto, acórdão, decisão monocrática e histórico rastreável. Se os signatários sabem que existe crise, sabem também quem a produziu, porque foram eles, durante décadas, que assistiram, aplaudiram, silenciaram ou participaram da lenta metamorfose do tribunal em quarto poder autoproclamado. Portanto, ou nomeiam os culpados, ou confessam que a carta é fumaça performática para dar sobrevida à própria reputação diante da história.

Há algo de profundamente cômico nesse ritual de decoro tardio. Lembra o velho general romano que, depois de saquear a província e voltar rico para sua vila em Túsculo, escrevia epístolas indignadas ao Senado reclamando da corrupção dos costumes. A indignação chega sempre depois do banquete, nunca durante. E é justamente essa cronologia que denuncia a natureza do gesto. Quem realmente quer consertar uma instituição fala enquanto tem poder, arrisca cargo, enfrenta pares, racha placar. Quem escreve carta genérica aos setenta e cinco anos, com o contracheque garantido, apenas assina o próprio álibi para os livros de história futuros.

Perceba ainda a engenhosidade do arranjo. A carta não pede reforma constitucional, não pede fim do foro privilegiado, não pede transparência de gabinete, não pede limite de mandato, não pede publicização de decisões monocráticas, não pede absolutamente nada de concreto que ameace o próprio esquema. Pede apenas apuração, palavra mágica que no vocabulário togado significa comissão interna, relatório sigiloso, arquivamento discreto e almoço reconciliatório no fim do trimestre. O gato investigando o desaparecimento da sardinha, com direito a coquetel de encerramento no salão nobre.

Enquanto isso, o pagador da conta segue sendo o mesmo de sempre, o sujeito anônimo que nunca pediu comissão, nunca fez acórdão, nunca almoçou no gabinete e nunca receberá carta em sua defesa quando a próxima crise devastar sua padaria, sua oficina ou seu salário. Ele paga os treze signatários, paga os onze em atividade, paga os assessores, paga os prédios, paga os jatinhos e ainda paga o papel timbrado em que se escreveu o manifesto. E, no fim, recebe como contrapartida a honra de ler nos jornais que a crise existe, é grave, é histórica, mas ninguém, absolutamente ninguém, tem nome.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.