A notícia é sempre a mesma peça de teatro, apenas com figurino diferente. Casas de análise em Nova York descobrem, com ar solene de quem acaba de inventar a roda, que existem três riscos significativos pairando sobre as valuations do mercado acionário. Juros que teimam em não cair no ritmo desejado, concentração absurda em meia dúzia de gigantes de tecnologia, e uma economia real que insiste em não corresponder à euforia dos múltiplos. Quer dizer, descobriram água morna e vieram avisar como se fosse profecia. O que ninguém no relatório oficial tem coragem de escrever é a origem de tudo isto, porque escrever exigiria apontar para o culpado sentado na cadeira do banco central.
Olha, o mercado americano não está caro porque as empresas ficaram magicamente mais produtivas nos últimos quinze anos. Está caro porque uma década e meia de expansão monetária transformou capital em commodity barata, empurrou investidor conservador para dentro do risco, e criou uma geração inteira de gestores que jamais operou num ambiente de juros normais. Quando o crédito é fabricado do nada e distribuído a preço subsidiado, o preço dos ativos infla como balão de aniversário. Ninguém questiona o balão enquanto ele sobe. Todos fingem surpresa quando ele estoura.
Me diz uma coisa, essa concentração de mercado em sete ou oito nomes de tecnologia é fenômeno natural de darwinismo empresarial, ou é o efeito colateral previsível de dinheiro fácil que premia quem já é grande e sufoca quem tenta nascer? Siga o dinheiro. As mesmas empresas que dominam o índice são as que capturaram os melhores termos de financiamento na era dos juros zero, engoliram concorrentes menores por preço de banana, e agora operam com margens que só existem porque o custo de capital delas foi artificialmente comprimido por uma década. Não é gênio empreendedor, é subsídio disfarçado de inovação.
E aí vem a parte que os relatórios de banco de investimento jamais tocam, porque tocar seria confessar cumplicidade. A economia real, aquela do sujeito que produz alguma coisa palpável, não acompanha a festa do índice. Produtividade estagnada, endividamento das famílias em máximas históricas, pequenas empresas quebrando em ritmo silencioso, e um consumidor que só sustenta o PIB porque parcelou o próprio futuro em doze vezes sem juros. O descolamento entre Wall Street e Main Street não é acidente estatístico, é a consequência lógica de um sistema que resolveu, décadas atrás, socorrer sempre o ativo financeiro e nunca o trabalhador.
O terceiro risco, apresentado nos relatórios com aquela linguagem asséptica de quem quer parecer neutro, é o mais delicioso de todos: a política monetária pode não cortar juros na velocidade que o mercado precifica. Traduzindo do economês para o português, o mercado está apostando que o banco central vai salvar a farra novamente, e reza para que a inflação teimosa não atrapalhe o plano. Ora, é exatamente esta expectativa perpétua de resgate que criou a bolha em primeiro lugar. Toda geração de investidor acredita que desta vez é diferente, que os fundamentos justificam, que a nova era chegou. E toda geração descobre, geralmente com anos de atraso, que a gravidade financeira não foi revogada por decreto.
A conta desta bebedeira monetária vai chegar. Sempre chega. E quando chegar, os mesmos analistas que hoje falam em riscos significativos vão escrever colunas dizendo que ninguém poderia ter previsto, que foi um cisne negro, que os modelos falharam. Mentira. Foi previsto por qualquer pessoa disposta a olhar para o balanço do banco central sem os óculos ideológicos do keynesianismo de plantão. O problema é que enquanto a música toca, todo mundo dança, e ninguém quer ser o primeiro a sair da pista.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.