Antes que qualquer burocrata de terno inventasse a lorota de que sem Estado a humanidade voltaria a se estapear com pedaços de pau, um punhado de gente na planície de Konya, atual Turquia, resolveu construir uma cidade inteira sem consultar autoridade nenhuma. Çatalhöyük, com quase nove mil anos de idade, reunia milhares de casas de tijolos de barro coladas parede com parede, sem ruas, sem praças, sem avenida principal batizada em homenagem a algum coronel. Os moradores entravam em casa pelo teto, subindo em escadas e descendo pelas aberturas, num arranjo que hoje faria a Secretaria de Urbanismo ter um treco e sacar três multas simultâneas antes do café.
Repare no detalhe que os manuais escolares gostam de omitir: aquilo funcionou. Por séculos. Gerações inteiras nasceram, cresceram, comerciaram, pintaram murais, enterraram os mortos debaixo do próprio piso e se reproduziram, tudo sem um único departamento de zoneamento, sem taxa de iluminação pública e sem aquele senhor de gravata explicando na tribuna que a coletividade precisa dele para não cair no caos. As paredes se sustentavam mutuamente porque cada família construía a sua encostada na do vizinho, num acordo silencioso que nenhum decreto assinou. A ordem emergia da necessidade, não do carimbo.
Isso importa porque desmonta, com nove milênios de antecedência, a superstição fundadora de todo governo moderno: a de que sem autoridade central baixando norma sobre a altura do muro e a cor da fachada, as pessoas simplesmente não conseguem viver juntas. Çatalhöyük é a prova arqueológica de que a cooperação humana antecede em muito o aparato estatal que hoje se apresenta como seu inventor. Primeiro veio a cidade, depois o cobrador. Primeiro o telhado que servia de rua, depois o pedágio. Primeiro o vizinho, depois o síndico armado que exige mensalidade para permitir que você continue existindo onde já estava.
Não se trata de romantismo neolítico, ninguém aqui está sugerindo que troquemos o encanamento por potes de barro. Trata-se de perceber que aquela gente resolveu problemas complexos de convivência, engenharia, saneamento e defesa através de convenções costumeiras, propriedade familiar bem definida e reputação dentro da comunidade. Cada casa era um reduto, cada abertura no teto era um contrato tácito de respeito ao limite do outro. A palavra propriedade não estava escrita em código civil, mas era vivida no gesto diário de quem sabia exatamente onde terminava a sua parede e começava a do vizinho.
Compare agora com o espetáculo contemporâneo em que se paga taxa para construir, taxa para reformar, taxa para pintar, taxa para murar, imposto sobre a existência do imóvel, imposto sobre a venda do imóvel, imposto sobre a herança do imóvel, e no fim das contas o cidadão descobre que a casa em que dorme pertence, na prática, ao ente público que pode confiscá-la por atraso de boleto. Os moradores de Çatalhöyük teriam olhado para essa engenhoca com o mesmo espanto com que hoje olhamos para os murais de touros que eles pintavam. A diferença é que os murais tinham finalidade estética. O nosso arranjo tem finalidade extrativa.
A moral da história arqueológica, se é que se pode chamar de moral aquilo que qualquer criança percebe ao observar formigas construindo formigueiro, é que a organização social não precisou nascer da ponta de uma lança oficial. Nasceu do interesse mútuo, do medo comum, da vontade de comer, dormir e criar filhos sob um teto que também servia de estrada. Todo o resto, o inspetor, o alvará, a guia amarela, a certidão negativa, a taxa de fiscalização de fiscalização, é acréscimo posterior, cobrado a fórceps por quem descobriu que era mais lucrativo administrar o que os outros construíram do que construir junto. Nove mil anos depois, ainda estamos pagando por essa descoberta.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.