Enquanto as capitais nordestinas gastam fortunas em secretarias de inovação, comitivas a Israel e seminários sobre smart cities patrocinados por empresas que vendem lâmpada inteligente a preço de ouro, uma cidade encravada no Planalto da Borborema, sem praia, sem porto, sem tapete vermelho federal, acaba de liderar o ranking de qualidade de vida do estado e virou vitrine de software para a América Latina. O detalhe é constrangedor: Campina Grande fez isso praticamente sem que ninguém em Brasília percebesse. Quando o poder central ignora, a coisa floresce. Já é uma pista.
Reparem no arranjo, porque ele é revelador. A cidade construiu um ecossistema de tecnologia em cima de uma universidade que forma gente, de um parque tecnológico que nasceu quase por acidente e de empresários locais que descobriram, sozinhos, que algoritmo não conhece CEP. Não houve pacote bilionário anunciado em coletiva, não houve renúncia fiscal desenhada para beneficiar o primo do secretário, não houve inauguração com placa dourada. Houve trabalho, contrato privado, capital paciente e a benção da indiferença estatal. Onde o Leviatã não pisou, a semente vingou.
Comparem com o modelo oficial de desenvolvimento regional, aquele das superintendências, dos fundos constitucionais, dos incentivos que consomem bilhões e produzem fábricas fantasmas que fecham três meses depois da fita cortada. Quem paga essa festa é o contribuinte de Osasco, de Goiânia, de Blumenau, que vê parte do seu imposto embarcar para o Nordeste e virar prédio vazio. Quem recebe são intermediários, consultores, políticos regionais e o eterno cortejo de dependentes da mamata federal. Campina Grande, por não figurar no cardápio nobre desse banquete, foi obrigada a inventar riqueza de verdade. É a diferença brutal entre engordar o boi e desenhar o boi no PowerPoint.
Há uma lição aristocrática, no sentido antigo da palavra, dormindo nesse caso: qualidade se mede pelo que se produz, não pelo que se anuncia. A capital do estado, sentada em cima do orçamento, dos royalties, das benesses históricas, foi ultrapassada por uma cidade do agreste que trocou o discurso pelo compilador. E ninguém deveria se espantar. A história das grandes viradas urbanas, de Manchester a Bangalore, é sempre a mesma: começa quando o governo perde o interesse ou não sabe que a região existe. O empreendedor respira, o capital circula, o talento fica. Quando o Estado aparece, é para taxar o que já deu certo e reivindicar a paternidade da criança que nunca ninou.
Há também um aviso incômodo para os apóstolos da centralização, esses que acham que só existe progresso quando parte de um ministério com sigla de cinco letras. Se uma cidade sem litoral, sem metrô, sem aeroporto internacional, cercada de caatinga e forró, conseguiu virar referência em software exportando código para o mundo, então a tese de que o Nordeste precisa de tutela permanente é uma mentira útil para quem administra a tutela. É a velha rotina do curandeiro que envenena o paciente para depois vender o antídoto. Enquanto isso, o algodão colorido e a Festa de São João seguem financiando a cidade sem pedir contrapartida ideológica a ninguém.
Fica a pergunta que interessa: o que Campina Grande fez de diferente? Não fez. Apenas não foi impedida. E essa é, no fundo, a única receita de desenvolvimento que sempre funcionou desde que o primeiro fenício resolveu vender púrpura sem pedir licença ao rei. Onde o poder recua, a prosperidade avança. Onde o poder se instala, chega o folclore da inclusão, o ritual da renúncia fiscal seletiva e a certeza de que, no fim, quem paga a conta é sempre o mesmo trouxa: quem trabalha, produz e ainda tem que aplaudir a inauguração da própria algema.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.