A agência espacial americana acaba de anunciar, com aquela pompa institucional que sempre precede as pequenas humilhações, que Reid Wiseman e Victor Glover não voarão mais em missões futuras. Foram elevados à categoria de astronautas eméritos, título que na linguagem franca das repartições significa exatamente isto: obrigado pelos serviços prestados, agora fique quieto no canto e sorria nas fotos comemorativas. Homens que supostamente atravessaram o vácuo cósmico e contornaram a Lua depois de mais de cinquenta anos de hiato lunar são convidados a pendurar o capacete antes mesmo de suar a próxima fase do programa. Curioso, não?
Convém lembrar quem paga essa festa toda. O programa Artemis já engoliu mais de noventa e três bilhões de dólares do contribuinte americano, com estimativas oficiais projetando gastos que ultrapassam a marca dos cento e cinquenta bilhões até o fim da década. Cada lançamento do foguete SLS custa em torno de quatro bilhões de dólares, valor que seria considerado indecente até por um faraó megalomaníaco. E os beneficiários dessa sangria? Não são exatamente os astronautas, coitados, que recebem salários de funcionário público graduado. São a Boeing, a Lockheed Martin, a Northrop Grumman, a Aerojet Rocketdyne, o complexo industrial que aprendeu, desde os tempos da Guerra Fria, que espaço é o melhor pretexto já inventado para transferir dinheiro do bolso do padeiro para o cofre do lobista.
Existe uma pergunta que a imprensa embevecida se recusa a fazer, talvez por medo de estragar o encanto: se a missão foi tão gloriosa, tão histórica, tão épica, por que dispensar justamente os protagonistas antes do segundo ato? A resposta cabe num silogismo desses que nenhuma coletiva de imprensa aguenta ouvir. Se uma missão de sucesso valida seus tripulantes, e se estes tripulantes estão sendo aposentados para funções cerimoniais, então ou a missão não foi bem o que venderam, ou os tripulantes sabem algo que a agência preferiria manter em silêncio profissional. As duas hipóteses são desconfortáveis. Escolha a que preferir.
Faz parte do repertório clássico das grandes burocracias substituir os rostos de uma operação toda vez que se aproxima o momento das perguntas incômodas. É o mesmo procedimento das dinastias antigas, que promoviam generais a governadores de províncias remotas quando queriam neutralizá-los sem o escândalo de uma execução pública. O emérito é o exílio elegante, a medalha que amordaça, o galardão que ao mesmo tempo agradece e demite. Wiseman e Glover viraram estátuas vivas do programa; podem discursar em escolas, cortar fitas de museus, autografar posters, mas participar da próxima etapa, não. A próxima etapa exige carne fresca, sem memória e sem opinião formada.
E não custa lembrar que a Artemis II, aquela missão celebrada como o retorno triunfal da humanidade ao espaço profundo, foi na prática um sobrevoo lunar sem pouso, executado com tecnologia que em muitos aspectos representa retrocesso em relação ao que existia na década de setenta. Enquanto empresas privadas fazem foguetes reutilizáveis pousarem em plataformas no meio do oceano gastando uma fração do orçamento estatal, a agência oficial descarta o SLS inteiro a cada voo, como quem joga fora um Boeing 747 depois de uma única viagem entre São Paulo e Recife. É o modelo perfeito do capitalismo de compadres travestido de conquista científica: privatizam-se os lucros dos fornecedores, socializam-se os custos e, quando alguma coisa ameaça vazar, aposentam-se os astronautas com honra e uma placa.
Restam, portanto, as duas perguntas que abrem e fecham qualquer análise honesta sobre esse tipo de espetáculo. Quem paga? O sujeito que aperta o parafuso na linha de montagem, o professor que ensina crianças a somar, o pequeno comerciante que ainda não faliu apesar dos tributos. E quem recebe? As empreiteiras aeroespaciais, os senadores dos estados onde essas empresas mantêm fábricas convenientemente distribuídas, os consultores que orbitam Washington como satélites em decadência, e o próprio aparato burocrático que se autoalimenta produzindo narrativas de grandeza para justificar sua existência. Os astronautas? Ah, esses são figurantes de luxo. Servem para as fotos, sorriem no telejornal e, quando começam a fazer perguntas demais, ganham um belo diploma de emérito e a chave dourada do esquecimento.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.