Enquanto o cidadão comum precisa de três alvarás para abrir uma padaria e de um parecer técnico para pintar a fachada da própria casa, existe, no fundo do oceano, uma civilização inteira de bichos moles que prospera sob pressão centenas de vezes maior do que a suportada pelo mais robusto engenheiro naval. Ninguém os cadastrou, ninguém os regulou, nenhum secretário-adjunto de assuntos abissais assinou a portaria autorizando a existência deles. E, ainda assim, lá estão, há milhões de anos, gelatinosos, luminescentes, indiferentes ao noticiário. A notícia científica sobre a zona abissal é, no fundo, um espelho constrangedor para quem acredita que a vida só se organiza mediante decreto.
Repare no arranjo. A pressão é brutal, a luz é zero, o alimento é escasso, o frio é permanente. Nenhum ecologista militante desceu até lá para explicar aos peixes translúcidos como deveriam se comportar. Nenhum organismo internacional impôs metas de redução de rigidez corporal. Nenhum ministério de inclusão bioluminescente distribuiu recursos para as espécies menos favorecidas. E, no entanto, o sistema funciona, sofisticado, redundante, autossustentável. Cada bicho é o que precisa ser: mole onde precisa dobrar, lento onde precisa economizar, glutão nos raros banquetes que caem do andar de cima. A ordem emerge sozinha, precisamente porque ninguém está encarregado de impô-la.
É curioso o contraste com a superfície. Aqui em cima, onde a atmosfera pesa um quilo por centímetro quadrado, os humanos vivem convencidos de que qualquer atividade produtiva exige tutela, licença, imposto e um funcionário público olhando por cima do ombro. Não se pode vender pastel sem inscrição estadual, não se pode alugar quarto sem plataforma regulada, não se pode plantar tomate sem certificado. A tese oficial é que, sem essa camada infinita de intermediários fardados, o país cairia no caos. Os polvos abissais, que enfrentam pressão real, nunca ouviram falar de caos. Só os burocratas de escritório climatizado é que veem apocalipse em cada esquina desregulamentada.
Há uma lógica antiga e implacável nisso, e ela vale tanto para a fossa das Marianas quanto para a padaria da esquina. Onde há restrição severa, seleção brutal e nenhum salvador de plantão, a inteligência do sistema se distribui em milhões de decisões descentralizadas, cada organismo respondendo ao seu pedaço de realidade com a informação que dispõe. Onde há um planejador central prometendo consertar tudo, a inteligência migra para o gabinete, evapora nos memorandos e ressurge, meses depois, na forma de uma fila. A natureza não fez comitê para inventar a lula-vampira; o Estado precisa de vinte reuniões para trocar uma lâmpada.
Cabe, então, a pergunta indelicada de sempre. Quem paga essa mania humana de decretar a existência do que já existe, e quem recebe pelo serviço de fingir que organiza o inorganizável? O contribuinte paga, o funcionário recebe, e o resultado é um ecossistema burocrático muito menos eficiente do que aquele que se autorregula a oito mil metros de profundidade, no escuro absoluto, sem folha de pagamento. Os bichos moles do abismo suportam pressão de verdade. Nós, aqui em cima, mal aguentamos a pressão fictícia dos que se acham imprescindíveis. Talvez a lição não venha da tribuna, mas do fundo do mar, onde a vida dispensa autorização para acontecer.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.