Trezentos e cinquenta e três dólares e quatro centavos. É esse o preço que Wall Street decidiu pagar por um pedaço da Cloudflare, empresa que há uma década ninguém sabia pronunciar direito e que hoje intermedeia uma fatia gigantesca do tráfego mundial da internet. O papel, que abriu 2024 na casa dos setenta dólares, agora encosta em quatrocentos, e os analistas de terno engomado repetem em coro que é a "revolução da inteligência artificial na borda da rede". Quer dizer, ninguém está comprando empresa de tecnologia hoje; estão comprando bilhete de loteria com nome bonito.

O detalhe que a manchete esconde é o seguinte. A Cloudflare virou infraestrutura crítica de uma internet que, cada vez mais, precisa entregar respostas em milissegundos porque tem um modelo de linguagem do outro lado esperando para responder alguém no Cazaquistão. Quem controla essa camada intermediária controla latência, controla filtro, controla o que passa e o que não passa. E aí a coisa deixa de ser puramente tecnológica e vira geopolítica pura, com endereço em São Francisco e balanço trimestral em dólar.

Olha, o mercado não sobe sozinho. Sobe porque tem gente comprando com dinheiro que, em boa parte, nasceu de expansão monetária, de fundos empurrando alocação para tecnologia porque renda fixa americana anda politicamente delicada, e de uma tese que confunde crescimento de receita com criação genuína de valor. Cloudflare cresce, sim, cresce forte. Mas cresce numa festa em que o ponche foi servido pelo Federal Reserve durante uma década de juro baixo, e a ressaca ainda não terminou de ser paga. Cada máxima histórica em ativo de tecnologia hoje carrega, no DNA, um pedaço daquele dinheiro que foi impresso ontem para pagar programa social anteontem.

Me diz uma coisa. Quem lucra quando uma empresa de infraestrutura de rede vira monopólio silencioso do tráfego global? Os acionistas primeiros, claro, e os fundos que entraram cedo, e os executivos com opções de compra. Mas lucra também, e muito, o governo americano, que passa a ter um ponto de estrangulamento privado onde pode, quando quiser, exigir cooperação sob pretexto de segurança nacional. A empresa privada aparece na foto; o Estado tira proveito da estrutura. Não é conspiração, é como sempre funcionou desde que existe capitalismo de compadrio disfarçado de livre iniciativa.

Aqui no Brasil o efeito colateral é sentido de outro jeito. Empresa nacional que quer competir em infraestrutura digital não consegue, porque o cliente já está preso na camada da Cloudflare, da Amazon, da Google. O nosso "mercado" de tecnologia é, na prática, uma prateleira de consumidor final para produtos estrangeiros, enquanto o governo brasileiro discute regular rede social como se isso fosse soberania. Soberania de verdade se constrói com poupança interna, câmbio estável, juro civilizado e liberdade para empreender, coisas que aqui a gente troca alegremente por bolsa isso, auxílio aquilo e uma CPI por semana.

A ação da Cloudflare a trezentos e cinquenta e três dólares não é sinal de que o mercado enlouqueceu. É sinal de que o mercado, dentro das regras trapaceadas em que opera, está fazendo exatamente o que deveria fazer: precificar quem vai mandar amanhã. O resto do mundo assiste, aplaude e paga a conta no câmbio.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.