Analistas de Wall Street estão de olhos vidrados numa tela hoje esperando o resultado trimestral da Darden Restaurants, dona do Olive Garden, LongHorn Steakhouse e Capital Grille, com a expectativa oficial de que o papel oscile até 4,4% para cima ou para baixo dependendo de quantos pratos de camarão a empresa conseguiu empurrar entre julho e setembro. Quer dizer, o preço de um dos maiores grupos de restaurantes do planeta vai ser reprecificado em bilhões de dólares porque um comitê de terno vai comparar o lucro por ação com uma projeção que eles próprios inventaram três meses atrás. É a solenidade absoluta de um ritual que, se descrito em voz alta para um sujeito comum, soaria como esquizofrenia coletiva.
Olha, a Darden não é uma empresa qualquer, ela é o termômetro mais honesto do bolso da classe média americana. Ninguém financia jantar de sexta-feira com boleto parcelado, ninguém pega empréstimo no banco para pedir bruschetta. Quando o americano médio corta o Olive Garden do calendário, é porque alguma coisa fundamental já apodreceu antes na cadeia, e essa coisa tem nome e sobrenome: inflação persistente na comida, juros altos no cartão, seguro-saúde que sobe todo ano dois dígitos, e o famoso imposto invisível que corrói o poder de compra sem aparecer em nenhum contracheque. O prato de fettuccine Alfredo virou indicador macroeconômico porque o resto dos indicadores oficiais mente descaradamente.
Me diz uma coisa, quem realmente ganha nesse teatro trimestral? Não é o cozinheiro que ficou doze horas em pé, não é a garçonete que divide gorjeta com o busboy, e certamente não é o cliente que paga trinta e cinco dólares por um prato de massa que custa dois dólares para produzir. Quem lucra são os fundos alavancados que apostam nos dois lados da oscilação, os analistas que fabricam consenso para depois cobrar assinatura de quem quer saber o consenso, e a máquina inteira de derivativos que transforma o jantar de uma família em Cincinnati num contrato de opções negociado em Chicago. A refeição real virou pretexto, o que se negocia é a expectativa sobre a expectativa da expectativa.
E tem um detalhe que quase ninguém comenta em voz alta: a Darden opera mais de dois mil restaurantes num país onde o custo trabalhista foi artificialmente inflado por uma década de dinheiro barato, onde o preço do frango dobrou porque o milho virou combustível por decreto ambiental, e onde cada nova regulação sanitária de município democrata acrescenta um centavo no preço final do prato. Quando a margem operacional dessa empresa aperta um ponto percentual, não é má gestão, é a fatura acumulada de mil pequenas intervenções que os planejadores prometeram que não teriam custo nenhum. O prejuízo, claro, aparece no balanço da empresa privada; o mérito da regulação continua no gabinete do burocrata.
Existe uma ironia deliciosa em tudo isso. O mesmo americano que vota em programas de gastança pública, subsídio agrícola, salário mínimo elevado por canetada e controle de preços de aluguel, é o mesmo que fica furioso quando descobre que o prato de lasanha subiu três dólares desde a última visita. Ele não conecta os pontos, e a mídia econômica trabalha diligentemente para que ele nunca conecte. Vai falar em pressão de custos, em cadeia de suprimentos, em fatores globais, em qualquer coisa menos no óbvio: dinheiro impresso vira preço aumentado, e imposto cobrado do restaurante vira conta paga pelo cliente. Não existe almoço grátis, e a Darden hoje está literalmente vendendo o almoço.
Portanto, quando o relatório sair e a ação der o pulo ou o tombo dos 4,4%, lembre-se de que não é uma oscilação sobre macarrão. É um veredicto silencioso sobre quanto ainda sobra do salário do americano médio depois que o Estado terminou de servir a si mesmo. O mercado às vezes conta a verdade que os políticos passam a vida escondendo, e ele conta em números, sem adjetivo, sem cerimônia. Quem tem ouvidos, ouça o barulho do garfo raspando o prato vazio.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.