US$ 126,23. Este é o número que a DTE Energy, gigante de energia de Michigan, imprimiu como mínima de 52 semanas, e nenhum comunicado corporativo com tipografia bonita vai desfazer o recado que o pregão mandou. Quando uma utility regulada, aquele bicho manso que deveria pagar dividendo estável como relógio suíço, desaba a ponto de bater no chão anual, alguma coisa muito mais profunda está rangendo na engrenagem. E não é a economia americana, não é o clima, não é o consumidor mau. É a estrutura de incentivos que os reguladores construíram e agora fingem não reconhecer.
Concessionária de energia é o exemplo perfeito daquele arranjo em que ninguém enxerga o custo até ele chegar na conta. O sujeito de Detroit paga a tarifa achando que está financiando o fio que traz elétron até a lâmpada da cozinha, e não sabe que está bancando bilhões em capex forçado para desmontar usinas de carvão perfeitamente funcionais, construir parques eólicos que não geram quando o vento não colabora, e cumprir metas de descarbonização que foram decididas em salas onde ninguém entende de despacho de carga. O que se vê é a placa colorida no telhado. O que não se vê é a base de ativos inflada, o retorno regulado corroído pela inflação real e o balanço patrimonial afogado em dívida para financiar tudo isso.
Siga o dinheiro, sempre. Michigan aprovou em anos recentes um dos planos mais agressivos do país para forçar concessionárias a atingir cem por cento de energia limpa até 2040, e a DTE embarcou com entusiasmo porque, dentro da lógica regulada, cada dólar investido em ativo aprovado vira base para calcular tarifa. Parece jogo de ganha-ganha, mas só até o momento em que juros de longo prazo sobem, os custos de capital explodem, e o regulador estadual descobre que aprovar aumento tarifário na velocidade que a companhia precisa é politicamente indigesto. Aí a matemática vira contra a empresa. O acionista, que entrou achando ter comprado um título quase soberano com upside verde, olha para a tela e vê treze por cento evaporados no ano enquanto o índice do setor sangra junto.
Há uma piada antiga sobre monopólios regulados: eles socializam o risco e privatizam o lucro, até o dia em que o regulador percebe que precisa reeleger alguém e inverte o feitiço. Foi mais ou menos o que aconteceu aqui. A companhia gastou anos comunicando trilhões em capex planejado como se fosse virtude, contratou consultoria para carimbar o discurso ESG, e agora se encontra segurando ativos caros, produzindo eletricidade mais volátil, com clientes reclamando de apagões e uma comissão estadual pressionada a segurar reajuste. O mercado, esse organismo que ninguém controla e que integra em tempo real informação que nenhum burocrata sonha em processar, cheirou o desequilíbrio e vendeu.
O detalhe delicioso é que tudo isso foi vendido ao público americano com a etiqueta de progresso técnico inevitável, quando na verdade é planejamento central disfarçado de mercado. O verdadeiro livre mercado energético jamais teria escolhido desmontar geração de carvão barata e confiável para trocar por matriz intermitente subsidiada; teria deixado o preço, esse sinal humilde e brutal, dizer o que vale a pena. Mas onde o preço é fixado por comissão política e o mix é definido por decreto ambiental, o cálculo econômico morre. E quando o cálculo econômico morre, o resultado é sempre o mesmo em qualquer setor, em qualquer país, em qualquer década: capital mal alocado, escassez sorrateira e uma conta que alguém precisa pagar. Neste caso, começou pelo acionista da DTE.
A queda para US$ 126,23 não é acidente de percurso nem correção técnica. É o sistema de preços fazendo aquilo que o sistema de preços faz de melhor, contar a verdade que os relatórios oficiais insistem em maquiar. Quem controlar a impressora de tarifa controla o destino da empresa, e quem depende dessa impressora para justificar dez anos de gastança verde vai descobrir, como sempre se descobre, que promessa de burocrata não paga cupom de dívida. O mercado paga. Sempre.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.