A Heartflow, empresa que usa inteligência artificial para diagnosticar doenças coronarianas sem cortar o peito de ninguém, cravou máxima histórica de US$ 51,78 por ação. Não foi bondade do Federal Reserve, não foi subsídio do Departamento de Saúde, não foi programa de aceleração pública. Foi capital privado, arriscado por gente que tinha algo a perder, apostando que uma tecnologia que salva vidas também gera lucro. E gerou. O mercado, esse organismo que ninguém desenhou e que funciona melhor do que qualquer comitê já sonhou, precificou em tempo real o que milhões de decisões individuais julgaram valioso.

Repare no que se vê e no que quase ninguém quer olhar. O que se vê é o gráfico verde, a manchete no Investing, o analista sorrindo. O que não se vê é o exército de cardiologistas, engenheiros, programadores, investidores anjos, fundos de venture capital e pacientes reais que, durante mais de uma década, testaram, erraram, refizeram, queimaram capital, foram humilhados por reguladores da FDA e mesmo assim entregaram um produto que substitui cateterismo invasivo por um exame de imagem processado por algoritmo. Nada disso teria acontecido num regime em que o Estado decide o que é prioridade médica. Nada. A prova é que não aconteceu em nenhum lugar onde o Estado decide.

E aí vem a comparação que dói. Enquanto o americano compra ação de uma empresa que diagnostica infarto antes de ele acontecer, o brasileiro discute se telemedicina precisa de resolução do conselho, se o médico pode assinar laudo remoto, se o algoritmo é ético, se a startup de saúde tem CNPJ do tipo certo, se o app pode ser baixado sem selo do Ministério. Cada carimbo é um paciente que não foi diagnosticado. Cada reunião de comitê é uma artéria entupindo em silêncio. A conta desse atraso não aparece em nenhuma planilha do Tesouro, mas está lá, distribuída em enfartes, aposentadorias por invalidez e velórios que poderiam ter esperado mais vinte anos.

Siga o dinheiro e a fábula desmonta sozinha. Quem financiou a Heartflow foram fundos que responderam por suas decisões com o próprio patrimônio. Se errassem, quebravam. Se acertassem, ganhavam, e a sociedade ganhava junto. Compare com o modelo em que o dinheiro sai do bolso do contribuinte, passa por três ministérios, é distribuído por critério político, e no final ninguém é responsável pelo fracasso porque o prejuízo é socializado. Um sistema seleciona competência e pune erro. O outro seleciona conexão política e premia lobista. Adivinhe qual dos dois produz diagnóstico cardíaco por inteligência artificial e qual produz CPI.

Há uma sabedoria antiga, dessas que a modernidade tecnocrata tenta apagar, segundo a qual ninguém sabe mais sobre o que uma pessoa precisa do que ela mesma. Multiplique isso por trezentos milhões de americanos decidindo o que comprar, o que financiar, o que valorizar, e você tem um sistema de processamento de informação que nenhuma máquina estatal jamais replicará. O preço de US$ 51,78 não é um número, é a síntese de milhões de julgamentos individuais convergindo sobre um pedaço da realidade. Quando o burocrata resolve substituir esse mecanismo por sua opinião esclarecida, o que ele está dizendo, no fundo, é que a inteligência dele vale mais do que a de todo mundo somada. É risível quando não é trágico.

O recado que a Heartflow manda de Wall Street é simples e por isso mesmo insuportável para quem vive de complicar. Deixe as pessoas arriscarem o próprio dinheiro, deixe o consumidor escolher, deixe o inventor errar sem cadeia, deixe o preço dizer o que é útil, e a civilização avança. Coloque um comitê no meio, e ela definha. Não é ideologia, é aritmética da realidade. Enquanto isso, aqui, a discussão continua sendo se pode ou não pode, se precisa ou não precisa de autorização, se o Estado deve ou não deve. A resposta chegou de Nova York, em dólar, com máxima histórica: não deve, não precisa, e quanto menos, melhor.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.