A ação da Opendoor Technologies bateu a mínima de 52 semanas e o mercado, que até ontem tratava a empresa como o futuro inevitável da compra e venda de casas, agora finge que nunca a conheceu. É sempre assim. Enquanto o juro americano estava no chão e o crédito jorrava como se fosse benção divina, qualquer startup que colocasse a palavra tecnologia na frente de um negócio tradicional recebia múltiplo de empresa espacial. Bastou o Federal Reserve encarecer o dinheiro para descobrirmos que muita coisa vendida como revolução era só arbitragem de taxa de juros vestida de aplicativo.
O modelo do iBuying tem uma beleza estranha para quem entende pouco de economia real. A empresa compra a casa do vendedor à vista, tira alguns por cento de desconto pela conveniência, faz pequenos reparos e revende no varejo. No papel funciona. Na planilha do executivo em Palo Alto funciona ainda melhor. No mundo em que o preço dos imóveis sobe eternamente e o custo de capital é praticamente zero, funciona lindamente. Fora dessa bolha climatizada, funciona como qualquer especulador alavancado funciona quando o vento vira, ou seja, mal.
Repare no que ninguém quer olhar. Cada casa no estoque da Opendoor é dívida rolando, imposto predial correndo, seguro pingando, manutenção vazando. Enquanto o preço médio subia, o estoque parecia ativo. Quando o mercado esfriou, o mesmo estoque virou passivo com fotografia bonita no site. A empresa não descobriu como comprar e vender casas. Descobriu como transferir para o acionista o risco de manter estoque imobiliário em um ambiente monetário artificialmente frouxo, cobrando pela ilusão de eficiência. É um trabalho honesto enquanto o Banco Central mente sobre o preço do dinheiro. Deixa de ser no dia em que o preço volta ao real.
E aqui entra o detalhe que os fundos que ainda seguram o papel preferem não mencionar. A queda não é acidente de percurso nem "correção passageira do mercado", como dizem os analistas que precisam justificar o próximo relatório de compra. É consequência lógica de um modelo que precisa de três coisas ao mesmo tempo, crédito barato, imóvel subindo e comprador ansioso. Tirem uma perna do tripé e a coisa cambaleia. Tirem duas e você tem gráfico de mínima anual estampado no terminal.
O aprendizado, para quem quiser aprender, é o de sempre e ninguém aprende. Não existe algoritmo que revogue a lei da oferta e da procura. Não existe inteligência artificial que transforme um negócio de margem apertada e capital intensivo em máquina de crescimento exponencial. E não existe expansão monetária eterna, por mais que os doutores da toga do Fed jurem o contrário. Cada ciclo de dinheiro fácil pare seu próprio zoológico de empresas que só existem porque o juro estava errado. Quando o juro se corrige, o zoológico esvazia. Sempre foi assim, sempre será, e nenhuma disruption de slide em fundo preto muda esse fato tedioso.
A pergunta interessante não é se a Opendoor vai se recuperar. É quantas outras Opendoors ainda estão nos portfólios que se apresentam como sofisticados, esperando o próximo aperto revelar que o rei também estava nu. O mercado adora esquecer, mas o juro tem memória longa. E cobra com pontualidade britânica.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.