A Pediatrix Medical Group, maior rede de neonatologistas e pediatras hospitalares dos Estados Unidos, acaba de atingir sua máxima de 52 semanas na bolsa. Analistas aplaudem, gestores sorriem, relatórios de corretoras elogiam a "resiliência do modelo". Olha, antes de embarcar no entusiasmo, convém olhar para o que não se vê. Uma empresa que lucra com UTI neonatal, parto de risco e internação pediátrica em alta histórica não é sinal de economia saudável, é sintoma de algo mais interessante acontecendo embaixo do capô.

O modelo de negócio da Pediatrix depende de três coisas que ninguém quer dizer em voz alta: contratos cativos com hospitais, reembolsos de Medicare e Medicaid, e seguradoras privadas que repassam o custo via prêmios cada vez mais altos. Quer dizer, é uma empresa que opera num mercado onde o consumidor final, o pai do bebê internado, não negocia preço, não escolhe prestador na maioria dos casos, e descobre o valor da conta semanas depois do serviço prestado. Isso não é mercado, é algo bem diferente, e qualquer um que já tenha visto uma fatura hospitalar americana sabe do que estou falando.

Me diz uma coisa, por que uma ação de serviços médicos pediátricos sobe de forma consistente num ambiente em que a natalidade americana está em queda estrutural há mais de uma década? A resposta não está no volume, está na margem. E a margem vem de duas fontes: codificação agressiva de procedimentos e consolidação regional que elimina concorrência. Quando uma rede controla a neonatologia de 380 hospitais, não existe concorrência de preço, existe fixação. O pai do prematuro de 29 semanas não vai pesquisar no Google qual UTI neonatal tem o melhor custo-benefício, ele assina o que colocarem na frente dele.

Siga o dinheiro e você encontra o padrão. Medicare e Medicaid respondem por fatia relevante da receita, o que significa que o contribuinte americano está, no fim das contas, financiando a valorização do papel. A impressora monetária de Washington despeja liquidez, essa liquidez infla ativos de saúde porque saúde é demanda inelástica, e o resultado é uma máxima de 52 semanas que não reflete produtividade real, reflete transferência de riqueza do pagador de imposto para o acionista institucional. É o capitalismo de compadrio travestido de livre mercado, e Wall Street adora porque entende o jogo melhor do que qualquer um.

O lado perverso dessa história é que o setor privado americano, teoricamente o mais capitalista do planeta na área de saúde, virou um dos exemplos mais acabados do que acontece quando o Estado intermedeia bilhões sem que o consumidor final jamais veja uma etiqueta de preço. Preço é informação, e quando a informação some, o cálculo econômico some junto. Resta a captura regulatória, o lobby corporativo e a planilha trimestral do CFO explicando por que o EBITDA cresceu dois dígitos num país onde nascem menos bebês a cada ano.

Então quando ler que a Pediatrix bateu máxima histórica, não leia como vitória do mercado. Leia como diagnóstico. O que está sendo celebrado é a eficiência de uma máquina que extrai renda de um sistema podre pela base, onde ninguém escolhe, ninguém negocia e todo mundo paga. A próxima vez que alguém disser que a saúde americana é o paraíso do capitalismo, mostre o gráfico da Pediatrix e pergunte onde está o capitalismo nisso.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.