Vinte e quatro de setembro, resultados da Uranium Energy, e os oráculos de plantão já cravaram: a ação pode oscilar 1,5%. Repare bem no verbo. Pode. Quer dizer, pode oscilar, pode não oscilar, pode subir, pode cair, pode ficar parada olhando para o teto. É o equivalente financeiro de dizer que amanhã pode chover ou fazer sol, cobrar cinco mil dólares pela consultoria e ainda receber prêmio de excelência analítica no fim do ano. O truque é antigo, mas continua funcionando porque investidor com pressa prefere um número redondo a uma verdade complicada.
Olha, o urânio não é uma commodity qualquer. É a espinha dorsal da promessa energética que o Ocidente passou quarenta anos sabotando em nome de causas ambientais patrocinadas, coincidentemente, por quem lucra vendendo gás russo, petróleo saudita e painel solar chinês. Enquanto a Alemanha desligava reatores para queimar carvão e chamar isso de transição verde, a China construía cinquenta e seis usinas nucleares e a Rússia dominava o ciclo do combustível enriquecido. Agora que a conta chegou, com faltando eletricidade para alimentar data center de inteligência artificial, o urânio virou febre. E aí aparece o analista de terno cinza cravando 1,5% de oscilação como se estivesse lendo os astros.
Me diz uma coisa, se a previsão fosse séria, ela viria acompanhada de qual? Do preço do spot em Cameco, do estoque estratégico americano que foi drenado durante décadas por acordo idiota com Moscou, da capacidade de conversão que sumiu do mapa ocidental porque ninguém quis mais construir planta industrial em país onde ambientalista processa tudo. Nada disso aparece no relatório. Aparece uma banda de 1,5% que serve para justificar recomendação de compra, recomendação de venda, recomendação de manter e recomendação de esperar. Quatro recomendações contraditórias saindo do mesmo número. É genial, no sentido em que o vigarista do jogo de bola escondida é genial.
Siga o dinheiro. Quem lucra com essa banda apertada de previsão? A corretora que precisa de volume, o gestor que precisa justificar taxa de administração, o veículo passivo que compra ETF de urânio no piloto automático e paga comissão a cada rebalanceamento. O acionista pequeno, aquele que colocou economia de vinte anos apostando que o mundo ia acordar para energia nuclear, esse fica olhando a tela e sendo empurrado para dentro e para fora do papel por análise que tem tanta ciência quanto búzio de camelô. E quando a ação faz movimento real, digamos dez por cento em um dia porque um contrato com utility americana foi assinado, o mesmo analista aparece na CNBC dizendo que estava tudo dentro do esperado.
O engraçado é que o fundamento da Uranium Energy é justamente o contrário desse jogo pequeno. A empresa aposta que os Estados Unidos vão precisar reconstruir cadeia doméstica de urânio porque acordaram tarde demais para o fato de que depender de Rosatom para combustível nuclear é o mesmo que depender do vizinho ciumento para acender a lâmpada da própria casa. Se essa tese estiver certa, e ela está, a empresa não oscila 1,5%. Ela multiplica. Se estiver errada, e ela pode estar porque governo americano é lento e imprevisível, cai muito mais do que 1,5%. O intervalo honesto seria de menos vinte a mais quarenta. Mas honesto não vende relatório.
No fim das contas, o que se vende como análise é ritual. É como aqueles medievais que examinavam entranhas de galinha para prever colheita. O sacerdote sabia que não sabia, o rei sabia que o sacerdote não sabia, mas o ritual acalmava o camponês. Hoje o sacerdote usa terno, o rei se chama comitê de investimentos e o camponês baixou o aplicativo da corretora. Mudou o figurino, não mudou a farsa. E quem quiser proteger o próprio patrimônio faria melhor lendo o relatório trimestral inteiro, olhando fluxo de caixa, entendendo por que a mineração de urânio ficou concentrada em quatro países e ignorando solenemente qualquer número que termine em vírgula meio por cento.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.