Chegou mais uma dessas manchetes que parecem escritas por corretor de imóvel em fim de mês. Uma ação de inteligência artificial, dizem, foi selecionada por um algoritmo, subiu quase o dobro do valor e ainda tem outro tanto pela frente. Repare no truque retórico: o algoritmo escolheu. Não foi analista, não foi gestor, não foi ninguém com nome, sobrenome e CPF para responder por prejuízo. Foi a máquina. E quando a máquina errar, a culpa será de quem, exatamente? Do silício? Da eletricidade? Do usuário que teve a ousadia de acreditar no que estava escrito em letras garrafais numa página de portal financeiro?
Há um problema epistemológico grave escondido embaixo desse marketing digital, e ele é tão antigo quanto o mercado. Nenhum modelo estatístico, por mais sofisticado que seja, possui o conhecimento disperso entre milhões de agentes que negociam em tempo real. O preço de uma ação é o resultado momentâneo de bilhões de decisões subjetivas, e projetar cinquenta e dois por cento de valorização futura com precisão de algarismo é a mesma arrogância intelectual de quem prometia calcular a produção de aço da União Soviética a partir de uma planilha em Moscou. Deu no que deu. A pretensão de reduzir o futuro a uma fórmula é o pecado original de todo planejamento centralizado, seja ele estatal ou algorítmico.
Agora siga o dinheiro, que é sempre o exercício mais esclarecedor. Quem ganha quando o portal publica uma promessa dessas? O portal ganha em tráfego, em cliques, em anúncios servidos. A empresa que oferece o tal algoritmo ganha em assinaturas de plataformas pagas, cursos de trading, alertas premium. Os fundos que já estão posicionados na ação ganham compradores tardios subindo o preço para eles saírem por cima. E o leitor, esse coitado que acha que descobriu o segredo do enriquecimento pela leitura de uma matéria de graça, ganha o quê? Ganha o direito de comprar no topo e vender no fundo, como sempre.
O que não se vê nessa notícia é o cemitério de ações que subiram noventa por cento antes de despencar cento e vinte. O que não se vê é a lista silenciosa das recomendações anteriores do mesmo algoritmo que agora se apresenta como profeta. Ninguém publica manchete dizendo que o modelo errou em sete das últimas dez tentativas, porque isso não vende assinatura. A propaganda financeira funciona como cassino: exibe o vencedor do jackpot na televisão e esconde os milhares que saíram falidos pela porta dos fundos. E o eufemismo de chamar isso de análise, quando é apenas isca com cheiro de peixe, corrompe a própria noção de imprensa econômica.
Existe ainda a bolha semântica em torno da tal inteligência artificial, esse novo totem em cuja sombra qualquer negócio medíocre vira unicórnio. Empresa que colocou a sigla no nome duplicou o valor de mercado, e ninguém pergunta se ela dá lucro, se tem receita recorrente, se o produto existe fora do PowerPoint do investor day. Já vimos esse filme com as ponto com, com o blockchain, com o metaverso. A cada ciclo, o mercado inventa uma palavra mágica, os incautos correm, o dinheiro flui de baixo para cima, e quando a maré recua descobrimos quem estava nadando pelado. A diferença é que dessa vez o vendedor de banha de cobra terceirizou a promessa para uma máquina, como se o algoritmo carregasse alguma autoridade moral que o corretor humano perdeu.
A liberdade de comprar e vender é sagrada, e ninguém aqui defende que o Estado venha proibir portal financeiro de publicar besteira. O antídoto contra a manipulação não é a censura, é o discernimento. Quem entrega o próprio patrimônio a um oráculo digital porque leu uma manchete em portal de investimento merece, com todo respeito, a lição que o mercado inevitavelmente vai aplicar. A responsabilidade individual é a outra face inseparável da liberdade econômica, e fingir que existe atalho para a riqueza através de um algoritmo mágico é a versão contemporânea da alquimia. Ninguém transformou chumbo em ouro no século dezesseis, e ninguém transformará ruído estatístico em profecia lucrativa no século vinte e um.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.