A notícia chega com o ar morno de comunicado oficial: os acionistas da Canal+ aprovaram, em assembleia geral, todas as resoluções submetidas à votação. Todas. Cem por cento. Nenhuma fricção, nenhum voto dissonante relevante, nenhum acionista minoritário batendo na mesa para perguntar de onde sai e para onde vai cada euro. Quer dizer, a coisa passou como manteiga em frigideira quente, e a imprensa econômica reproduziu o release como se fosse manchete de progresso. Olha, quando uma assembleia aprova tudo sem ranhura, o que está sendo celebrado não é governança, é obediência.

O ritual societário moderno virou exatamente isso: um plebiscito de cartório onde o controlador apresenta a pauta, os fundos institucionais votam conforme orientação de proxy advisor, e o pequeno acionista descobre pelo jornal que sua empresa mudou de rumo. A assembleia geral, que nas origens do direito comercial era o espaço onde o dono do capital fiscalizava o gestor do capital, virou cerimônia de validação. O conselho propõe, a mesa carimba, e o comunicado sai redigido em tom de vitória democrática. Democracia, aliás, é a palavra que essa gente usa quando quer dizer encenação.

Vale lembrar quem é a Canal+ nessa fotografia. A empresa foi cindida do grupo Vivendi, controlada pela família Bolloré, listada em Londres num movimento que separou os ativos midiáticos da matriz francesa e jogou a operação de televisão paga num novo perímetro acionário. Ou seja, antes mesmo da assembleia, a estrutura de capital já havia sido desenhada para que o controlador mantivesse rédea curta e os minoritários ficassem com a paisagem. Quando se aprova tudo, é porque a aritmética do voto já estava resolvida antes da convocação. O que se vê é o anúncio. O que não se vê é a negociação que aconteceu nos meses anteriores, nos escritórios, nos jantares, nas ligações que nenhum acionista de varejo jamais participará.

E há ainda a camada regulatória, que ninguém menciona. A Canal+ está no meio de uma disputa pela MultiChoice na África do Sul, um movimento bilionário que precisa do aval de reguladores africanos, europeus e britânicos. Cada resolução aprovada na assembleia, das emissões de capital aos planos de remuneração de executivos, alimenta a engrenagem dessa expansão. Quem paga a conta da expansão? O acionista. Quem colhe os bônus se der certo? O executivo. Quem absorve o prejuízo se der errado? Sempre o mesmo de sempre, o sujeito que comprou cem ações achando que estava participando do capitalismo e descobriu que estava financiando o palácio dos outros.

O fato de o mercado tratar unanimidade como sinal de saúde institucional revela o quanto a cultura financeira contemporânea foi domesticada. Onde houver discordância, há vida. Onde houver voto contrário relevante, há fiscalização real. Onde tudo passa com folga de noventa e nove por cento, há concentração de poder fantasiada de processo deliberativo. Me diz uma coisa: você confiaria mais numa empresa cujos acionistas brigam abertamente sobre estratégia, ou numa empresa onde todo mundo aprova tudo de cabeça baixa? A resposta é incômoda justamente porque é óbvia, e o óbvio é a primeira coisa que o sofisticado financeiro aprende a esquecer.

No fim, a moral desse cartório societário é simples. O acionista minoritário aplaudiu, o controlador agradeceu, os bônus serão pagos, a expansão continuará, e o próximo balanço dirá se a aposta deu certo. Se der errado, ninguém devolve nada. Se der certo, ninguém divide nada além do que já estava contratado em letra miúda. Capitalismo de verdade pressupõe risco para quem decide. O que se assiste hoje, em Paris, em Londres e em São Paulo, é outra coisa: é a privatização dos ganhos com socialização disfarçada das perdas, sob aplausos de uma assembleia que esqueceu para que servia.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.