A notícia chega embrulhada em papel de presente. Acionistas da Central Asia Metals aprovaram a compra da Cygnus, e os analistas de plantão saíram batendo palma como se estivéssemos diante de uma proeza do capitalismo criativo. Olha, uma fusão em mineração de metais críticos, cobre, zinco, chumbo, aquela lista que os governos ocidentais decoraram de tanto repetir em conferência climática, não é exatamente um triunfo do espírito empreendedor. É reação racional a um cenário onde o preço, a demanda e até o destino da produção estão sendo desenhados por comitê em Bruxelas, e não por consumidor final em lugar nenhum do mundo.

Quer dizer, ninguém nesta operação está apostando que a humanidade acordou apaixonada por baterias de lítio e turbinas eólicas de repente. O que se está comprando, na verdade, é um lastro sobre a mais nova invenção da engenharia burocrática global, a chamada transição energética. Traduzindo para o português dos mortais, é o arranjo onde governos prometem subsídio bilionário a quem produz o metal certo, imposto punitivo a quem produz o metal errado, e chamam isso de mercado. Fundir duas mineradoras neste ambiente não é sinal de força, é sinal de que sozinho ninguém sobrevive à próxima canetada regulatória.

Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais interessante. A Central Asia Metals opera no Cazaquistão e no Macedônia do Norte, jurisdições onde a régua ambiental é generosa e o custo político de uma greve verde é baixo. A Cygnus traz projetos em terras onde a mesma extração seria hostilizada por uma dúzia de ONGs financiadas pelos mesmos governos que decretaram a demanda pelo metal. O leitor consegue enxergar a piada? Vendem para o consumidor a fábula de que estão salvando o planeta enquanto empurram a sujeira da mineração para países pobres que ainda têm coragem de deixar alguém cavar um buraco.

E há o detalhe que ninguém comenta em coluna de página econômica de jornal grande. Toda vez que um setor se consolida, o consumidor perde. Não hoje, não amanhã, mas na terceira ou quarta rodada de fusões, quando restarem quatro empresas globais decidindo o preço do cobre em reunião fechada e todos os governos do mundo tratarem o cartel como parceiro estratégico. Já vimos esse filme no petróleo, já vimos na aviação, já vimos no agronegócio de commodities. O que se vê é a manchete triunfal do fechamento do negócio. O que não se vê é o pequeno minerador que jamais vai conseguir capital para competir, o consumidor que vai pagar mais caro pela lataria do carro em 2035, e o contribuinte europeu que vai bancar o subsídio de socorro quando a bolha do lítio estourar.

Há quem diga que fusão é coisa de mercado livre, e que quem está reclamando é inimigo do capitalismo. Bobagem. Mercado livre é aquele onde o empresário arrisca capital próprio contra a incerteza real do consumidor. Este mercado aqui é outra coisa, é um simulacro montado a partir de metas de emissão inventadas por governo, cotas de conteúdo local decretadas por parlamento, e crédito subsidiado por banco central. O empresário competente aprendeu a jogar dentro do labirinto que lhe montaram, e faz bem em jogar. Mas confundir a habilidade de dançar conforme a música do burocrata com a virtude do empreendedor original é um erro de análise que custa caro.

A consolidação vai continuar, as manchetes vão continuar celebrando, e daqui a alguns anos o mesmo comentarista que hoje aplaude a fusão vai escrever uma coluna indignada sobre como o setor de metais críticos virou um clube fechado dominado por meia dúzia de gigantes. Vai propor, é claro, mais regulação. E o ciclo recomeça, cada intervenção paridora da seguinte, cada distorção justificativa da próxima. Enquanto isso, o cazaque que trabalha no fundo da mina continua ganhando a mesma miséria, e o burocrata europeu continua ganhando seu bônus por ter salvo o planeta em mais uma reunião com café e biscoito.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.