Os acionistas da Network-1 Technologies fizeram o que acionista de empresa de patente sempre faz na assembleia anual, bateram palma. Reelegeram o conselho inteiro, aprovaram a remuneração dos executivos no famigerado say-on-pay consultivo, ratificaram os auditores e devolveram para a mesma cúpula de sempre o comando de uma companhia cuja atividade principal, convenhamos, é processar quem usa suas patentes e distribuir o resultado entre advogados, executivos e, eventualmente, acionistas. É o ritual anual do capitalismo gerencial em estado puro, aquele em que o dono formal aparece uma vez por ano para carimbar o que os administradores já decidiram sozinhos.

Vale olhar para o que está por trás da cortina de fumaça do comunicado. Quando a companhia diz que a proposta foi aprovada com folga, ela raramente conta que a folga vem de fundos de índice que votam no piloto automático seguindo recomendação de duas ou três casas de proxy advisory em Nova York. Quer dizer, o suposto poder difuso dos acionistas americanos, aquela fábula ensinada em escola de negócios, virou na prática um oligopólio de conselheiros de voto que decide o destino de milhares de empresas sem colocar um centavo próprio em risco. O pequeno investidor, esse, nem sabe que votou.

Repare no incentivo perverso do arranjo. O conselho define a remuneração dos executivos, os executivos definem quem entra no conselho, e a assembleia, essa figura decorativa, apenas homologa. Enquanto isso, o negócio real da Network-1 depende de uma máquina que ninguém votou, o sistema de propriedade intelectual construído por décadas de lobby no Congresso americano, que transformou patente em ativo financeiro negociável e criou uma indústria inteira de empresas cujo produto é o litígio. Não se está aqui produzindo bem, se está produzindo direito de cobrar de quem produz. O que se vê é o lucro trimestral; o que não se vê é o inventor pequeno que desistiu porque não tem departamento jurídico para enfrentar meia dúzia dessas holdings.

E aí entra a parte que os relatórios de resultado nunca explicam. Toda vez que um regulador aperta ou afrouxa a jurisprudência sobre patentes, o valor dessas companhias oscila sem que ninguém tenha inventado nada de novo, sem que uma única fábrica tenha sido construída, sem que um único emprego real tenha surgido. É riqueza que aparece e desaparece por caneta de juiz e por corredor de Washington. Siga o dinheiro e você entende por que assembleia é chata e o processo judicial é onde a ação de verdade acontece. Não é acaso, é desenho.

Aprovar por aclamação um conselho que se autoperpetua é o padrão americano de governança que nos vendem como modelo. Aqui no Brasil, olhando de longe, o executivo de Faria Lima suspira e diz que gostaria de ter aquela previsibilidade, aquela liquidez, aquela institucionalidade. Só não conta que a institucionalidade em questão é a de uma classe gerencial blindada, que arbitra sua própria remuneração e conta com o silêncio educado de um universo de acionistas anônimos representados por três consultorias. É a versão sofisticada, e por isso mais eficaz, da mesma velha regra, quem controla o processo controla o resultado.

A lição não é sobre a Network-1, que é peixe pequeno num aquário enorme. A lição é que capitalismo não é sinônimo de mercado livre, e mercado livre não é sinônimo de governança corporativa moderna. Há muita coisa chamada de livre iniciativa por aí que é apenas rentismo com boa assessoria de imprensa. Quando o dono não manda, o gerente manda; e quando o gerente manda, ele contrata o auditor, escolhe o conselho, define o próprio bônus e ainda passa a fatura para o cliente. Aplausos na assembleia, cheque no bolso, e o show recomeça no ano que vem.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.