A NexGel, aquela empresa de hidrogéis que ninguém consulta antes de investir mas todos comentam depois de perder, conseguiu o feito de aprovar em assembleia duas medidas que soam técnicas e são, na prática, o velho truque de mágico com o dinheiro alheio. Primeiro, autorizaram um aumento no número de ações que a companhia pode emitir. Segundo, aprovaram um grupamento inverso, o famoso reverse split, em que dez ações viram uma e o pequeno investidor acorda com menos papel na mão fingindo que ficou mais rico porque o preço unitário subiu. Se você acha que isso é gestão financeira sofisticada, é porque nunca leu a letra miúda de uma ata societária.

Grupamento inverso é o cosmético da bolsa. A empresa não vale mais depois dele, apenas parece menos constrangedora no ticker. É o equivalente corporativo de pintar a fachada do prédio que está com a fundação rachada. Companhias saudáveis não precisam desse tipo de maquiagem; quem recorre a reverse split quase sempre está tentando evitar deslistagem, cumprir exigência mínima de preço em bolsa ou disfarçar que o papel derreteu tanto que virou penny stock. E o mais engraçado é que o mesmo ato que promete arrumar a casa vem acompanhado, na mesma assembleia, da autorização para emitir mais ações. Ou seja, arrumam o preço unitário na segunda e já preparam a nova rodada de diluição na terça.

Siga o dinheiro e a coisa fica clara. Quem ganha com autorização para emitir mais ações? A administração, que passa a ter munição para pagar dívidas com papel, remunerar executivos com stock options, financiar aquisições sem tirar um centavo do caixa e, sobretudo, buscar novos aportes de investidores institucionais em condições que o pequeno acionista jamais conseguiria negociar. Quem paga? O sujeito que comprou a ação achando que estava participando de um negócio, quando na verdade estava apenas segurando um pedaço cada vez menor de um bolo que a diretoria se reserva o direito de fatiar de novo sempre que quiser.

Existe algo profundamente desonesto nessa dança semântica em que a diluição é apresentada como flexibilidade estratégica e o grupamento inverso é vendido como fortalecimento da estrutura de capital. É o tipo de vocabulário que só existe para anestesiar quem lê. Nenhuma dona de padaria aceitaria que o sócio dela chegasse dizendo assim, olha, vou dividir sua parte por dez, mas fica tranquila porque cada pedaço agora vale dez vezes mais, e a propósito também vou imprimir mais cotas para vender a outros sócios que ainda nem conheci. Ela chamaria a polícia. Na bolsa, chamam de governança e batem palma na assembleia.

O ponto que ninguém quer discutir é que a inflação de ações opera pelo mesmo mecanismo psicológico da inflação monetária. Quando um banco central imprime dinheiro, cada nota na sua carteira compra menos. Quando uma companhia emite ações, cada papel na sua carteira representa uma fatia menor da empresa. A diferença é que o governo faz isso com o dinheiro de todos e a diretoria faz isso com o patrimônio de quem confiou nela. Em ambos os casos, o mecanismo é o mesmo, transferir valor de quem não pode reagir para quem controla a impressora, seja ela do Tesouro ou do conselho.

A moral da história é velha e caberia em qualquer manual de sobrevivência do minoritário. Assembleia com pauta técnica é o momento em que o rebanho é tosquiado, e o tosquiador sempre chega com terno, apresentação em PowerPoint e voto de confiança dos fundos que já negociaram sua cota por fora. Enquanto a maioria dos acionistas comuns nem lê a convocação, os que redigem a ata já saíram do prédio com o que interessa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.