A notícia chega embrulhada em papel de presente corporativo. Acionistas aprovam, executivos sorriem, comunicados falam em "sinergias" e "criação de valor". Traduzindo do dialeto do mercado financeiro para o português: duas empresas farmacêuticas de médio porte, incapazes de sustentar seus próprios programas de pesquisa nos moldes atuais, resolveram fundir balanços para diluir prejuízo e agradar analista. É o velho truque de somar dois deficitários e chamar o resultado de gigante. Olha, quando o remédio é bom, ele se vende sozinho. Quando precisa de fusão para sobreviver, a doença está no modelo, não no laboratório.

Quer dizer, o setor de biotecnologia americano vive há décadas num regime peculiar que ninguém quer nomear: capitalismo nos ganhos, socialismo nas perdas, e um exército de reguladores da FDA transformando cada molécula promissora numa maratona de dez anos e dois bilhões de dólares antes de chegar à farmácia. O resultado inevitável desse arranjo é a consolidação. Pequenas empresas com moléculas interessantes não conseguem financiar a travessia do deserto regulatório, então são engolidas por outras um pouco maiores, que por sua vez serão engolidas pelas gigantes, num festival de fusões que a imprensa financeira celebra como se fosse inovação, quando é apenas a última fase da digestão de um mercado que o próprio Estado tornou impossível para o pequeno.

Me diz uma coisa: se a pesquisa farmacêutica fosse mesmo o oceano de livre iniciativa que os relatórios anuais descrevem, por que praticamente todos os grandes lançamentos das últimas duas décadas passaram por algum programa federal de incentivo, alguma parceria com o NIH, algum contrato com o Departamento de Defesa ou, no caso mais recente e escandaloso, a mamata sem precedentes da era pandêmica? Siga o dinheiro e você vai encontrar contribuinte americano bancando pesquisa cujos frutos serão privatizados, patenteados por vinte anos e revendidos ao mesmo contribuinte com margem estratosférica. A Theravance e a Zymeworks operam nesse mesmo ecossistema, e a fusão é apenas o rearranjo natural das peças no tabuleiro que o governo desenhou.

Há ainda o aspecto que o resumo econômico jamais menciona: cada fusão dessas elimina uma linha de pesquisa concorrente, reduz o número de laboratórios independentes, concentra decisão sobre quais doenças receberão atenção e quais serão abandonadas por falta de retorno esperado. O que se vê é a manchete festiva sobre criação de valor para o acionista. O que não se vê são os programas descontinuados, os cientistas demitidos, as terapias promissoras que serão engavetadas porque não se encaixam mais na estratégia da empresa resultante. E o que se vê ainda menos é o efeito de longo prazo: menos empresas, menos concorrência, preços mais altos, pacientes esperando mais tempo por menos opções.

A retórica dos comunicados oficiais fala em "acelerar o desenvolvimento de terapias inovadoras" com a mesma sinceridade com que um político em campanha promete equilíbrio fiscal. A realidade é que o setor virou refém de uma engrenagem em que o pequeno não sobrevive, o médio precisa se fundir, e o grande depende de subsídio governamental disfarçado de contrato de compra antecipada. Enquanto isso, o consumidor final, aquele que engole o comprimido, paga três vezes: como contribuinte que financiou a pesquisa básica, como pagador de imposto que sustenta a burocracia regulatória, e como cliente que arca com o preço final inflado por um sistema desenhado para privilegiar o consolidado sobre o disruptivo. Quando o mercado deixa de ser lugar de troca voluntária e vira sala de espera de decisão burocrática, a fusão não é vitória do capitalismo; é boletim de rendição.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.