Semana fechada, sangue vermelho nos painéis de Xangai, Shenzhen e Hong Kong, e o motivo oficial é sempre o mesmo enfeite retórico dos jornais econômicos, a saber, "preocupações com a trajetória dos juros do Federal Reserve". Traduzindo do economês para o português dos mortais, um punhado de senhores de gravata em Washington deu a entender que vai continuar apertando o cinto monetário, e imediatamente trilhões de dólares em capital saíram correndo dos mercados emergentes de volta para o conforto dos títulos do Tesouro americano. Isto não é mercado reagindo à realidade produtiva, isto é rebanho fugindo do estalo do chicote central.

Quer dizer, pare para pensar no absurdo da coisa. Uma fábrica em Guangdong continua produzindo o mesmo tanto de eletrônico, o operário chinês continua indo trabalhar na segunda de manhã, o consumidor de Hong Kong continua comprando arroz, e no entanto o valor de mercado dessas empresas evapora bilhões numa tarde porque um comunicado com meia dúzia de adjetivos ambíguos foi lido em outro continente. A economia real não mudou, o que mudou foi o preço artificial do dinheiro decidido por decreto. É como se o termômetro do quarto mudasse porque alguém em Brasília resolveu que o clima do país precisa de "ajuste fiscal do ar-condicionado".

E aqui está a piada cruel que ninguém conta nos telejornais. O mesmo Fed que agora ameaça manter juros altos foi o Fed que, durante mais de uma década, jogou dinheiro do helicóptero em quantidade que nenhum czar russo ousaria imprimir. Inflacionou tudo, do imóvel em Miami ao índice de Xangai, criou uma bolha global de crédito barato, e agora, quando a conta chega em forma de inflação nas gôndolas americanas, resolve "combater" a própria destruição que provocou apertando o crédito no mundo inteiro. O incendiário virou bombeiro e cobra hora extra pelo trabalho.

Siga o dinheiro e a história fica ainda mais deselegante. Quem lucra com juro americano alto? Os grandes bancos que carregam títulos do Tesouro, os fundos que operam arbitragem cambial, os credores de dívida soberana emergente que agora cobram spread gordo dos governos desesperados. Quem paga a conta? O produtor chinês que perde acesso a capital, o pequeno investidor de Hong Kong que vê a poupança encolher, o brasileiro que amanhã vai ver o dólar subir e o preço do trigo importado subir junto. É a mesma coreografia de sempre, socializa o prejuízo pela via cambial e privatiza o lucro pela via financeira, e ainda vendem isso como ciência monetária.

O detalhe filosófico que a manchada preguiçosa ignora é que este arranjo só existe porque aceitamos, há décadas, a fábula de que uma comissão de iluminados consegue calibrar o preço do bem mais importante da economia, que é o dinheiro. Ninguém em sã consciência aceitaria que treze burocratas decidissem o preço do pão ou do sapato, todo mundo entenderia na hora que isto geraria fila, desabastecimento e mercado negro. Mas quando os mesmos treze burocratas decidem o preço do crédito, que é o preço de todos os outros preços, aceitamos, aplaudimos e ainda pagamos ingresso para assistir ao circo. É a versão moderna do curandeiro da tribo, só que com PhD em Princeton e gravata italiana.

A queda desta semana nas bolsas asiáticas, portanto, não é notícia econômica no sentido honesto da palavra, é boletim de um sistema doente que finge normalidade. Enquanto o mundo inteiro tiver o pescoço amarrado ao cordão umbilical do dólar administrado por decreto político, continuaremos vendo essa dança patética em que a produtividade real de bilhões de pessoas vale menos que o humor matinal de um funcionário público americano. E vão continuar chamando isso de mercado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.