Dia 19 de outubro, as ações da Forgent passam a ser negociadas em bolsa, e o noticiário vende isso como se fosse marco civilizatório. Olha, admissão de ação à negociação não é milagre, não é bênção, não é prosperidade descendo do céu em caixa de ovo. É apenas o momento em que quem já estava dentro ganha o direito de vender para quem está fora. Quem está dentro são os sócios fundadores, os fundos âncora, os bancos coordenadores que ganharam gordas comissões para empacotar a oferta. Quem está fora é você, pequeno investidor, convidado para o jantar depois que a sobremesa já foi servida aos de casa.
O ritual da estreia na bolsa tem um roteiro tão previsível que dá tédio. Primeiro vem o roadshow com apresentação cheia de setas subindo e palavras como sinergia, escalabilidade, disrupção. Depois vem a precificação, sempre no topo da banda indicativa, porque banco de investimento nunca errou para menos. Depois vem o primeiro pregão, com fogos simulados, badalada na campainha, foto do executivo sorrindo. E depois vem o silêncio de seis meses, quando o lock-up expira e o papel começa a cair, porque os insiders estavam esperando a janela para sair com o lucro travado desde a largada.
Me diz uma coisa, por que todo IPO no Brasil parece coincidir com momento em que a empresa precisa dividir prejuízo com estranhos ou coroar a saída dos sócios antigos? Quando o negócio é mesmo bom, os donos não vendem, eles multiplicam. Quando o negócio precisa de capital porque está crescendo de verdade, existe dívida bancária, existe private equity, existe linha subsidiada do BNDES, que, aliás, é outra ferida aberta pagando a conta do capitalismo de compadrio brasileiro. Quando o caminho escolhido é a bolsa, é porque o custo do capital privado ficou alto demais, ou seja, porque alguém sóbrio olhou os números e disse não. Aí vem a bolsa, onde o varejo não lê balanço, não entende DRE, e compra narrativa como se fosse ingresso de show.
E o pano de fundo macroeconômico desta estreia não poderia ser mais sombrio. Juro real nas alturas, inflação corroendo o salário, dívida pública virando bola de neve enquanto o governo federal gasta como marinheiro em terra firme com cartão corporativo alheio. Nesse cenário, atrair investidor para renda variável é vender guarda-chuva furado em dia de temporal. O que o pequeno poupador precisa não é entrar em mais um papel ilíquido de empresa que ninguém sabe o que faz direito. O que ele precisa é parar de ser confiscado silenciosamente pela impressora de dinheiro, pelo imposto embutido, pela regulação que encarece tudo que ele compra no mercado.
O que não se vê, nesse carnaval de novas listagens, é o emprego que não foi criado porque o capital foi drenado da economia produtiva para alimentar a mesa de operações. É o pequeno empresário que não conseguiu crédito porque o banco preferiu financiar a aquisição alavancada de uma empresa que vai para o pregão. É o aposentado que vai colocar economia de uma vida inteira em um papel que ninguém da sua família entende, porque o gerente do banco bateu a meta do mês empurrando a oferta. A bolsa, que deveria ser mecanismo nobre de alocação de poupança, virou balcão de transferência de risco dos ricos para os remediados.
Então que venha a Forgent, que venham mais dez, mais vinte, mais cem listagens. Enquanto o Estado seguir sugando a riqueza real pela base, imprimindo moeda pelo topo e regulando pelos lados, nenhuma campainha tocada na B3 vai mudar o fato aritmético de que este país está empobrecendo todo mundo, menos quem está perto do balcão certo na hora certa. O verdadeiro pregão que importa não é o das nove da manhã, é o do Tesouro rolando dívida impagável enquanto o cidadão comum rola o próprio cartão de crédito a trezentos por cento ao ano.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.