A Goldcom acordou com o pregão sangrando depois de anunciar, quase no mesmo fôlego, a saída do diretor financeiro e a substituição da empresa de auditoria. O comunicado veio embrulhado naquele português corporativo que existe justamente para esconder o que quer dizer, cheio de "alinhamento estratégico" e "novo ciclo de governança", mas o mercado tem faro treinado. Bastaram alguns minutos para o papel derreter, porque quem opera com dinheiro de verdade sabe que essa combinação específica, CFO saindo e auditor sendo trocado, quase nunca é coincidência de calendário.

Existe uma regra não escrita, mas conhecida por qualquer analista que já viu duas ou três companhias explodirem, de que auditoria só é substituída em três situações. Ou o custo apertou, o que ninguém troca no meio do ciclo, ou houve divergência técnica sobre reconhecimento de alguma linha do balanço, ou o auditor viu algo que não estava disposto a assinar. Quando a troca vem acompanhada da saída do próprio responsável pelos números, o cardápio de hipóteses fica ainda mais estreito. Sobra o incômodo. E o incômodo, em contabilidade, tem nome, tem valor, e mais cedo ou mais tarde tem nota explicativa.

O interessante é observar quem lucra e quem paga a conta desse tipo de arranjo. O executivo geralmente sai com pacote de desligamento negociado em silêncio, o novo auditor chega cobrando prêmio de risco embutido nos honorários, os controladores ganham tempo para arrumar a casa antes que alguém precise justificar linha por linha, e quem come o prejuízo é o minoritário, aquele investidor pequeno que confiou no release trimestral e no selo de governança pendurado no site de relações com investidores. É sempre o mesmo roteiro, muda só o nome da empresa e o setor.

Há também a questão de fundo, que ninguém no jornalismo econômico brasileiro quer discutir. A estrutura regulatória atual, com camadas de compliance, comitês de auditoria, comitês de risco, códigos de conduta e certificações, foi vendida ao público como garantia de transparência. Só que essa arquitetura toda serve, na prática, para transferir a responsabilidade do controlador para uma nuvem difusa de assinaturas, onde ninguém responde pessoalmente por nada quando o balanço vira pó. Quanto mais elaborada a governança de papel, mais fácil esconder o problema dentro dela.

Vale prestar atenção nas próximas semanas ao que virá em fato relevante suplementar, à eventual republicação de demonstrações financeiras dos trimestres anteriores, e principalmente ao movimento dos insiders no formulário mensal da CVM. Se controlador e conselheiros estiverem reduzindo posição por meio de veículos, holdings ou parentes, o mercado já terá dado o veredicto antes de qualquer processo administrativo formal. Preço não mente, papel timbrado sim, e a diferença entre os dois costuma ser exatamente o tamanho do prejuízo que o pequeno investidor vai levar para casa.

No fim das contas, o episódio da Goldcom é um lembrete banal, quase pedagógico, de que a boa governança não nasce de manual, comitê nem circular normativa. Ela nasce da existência de consequência real para quem mente, o que exigiria um sistema judicial rápido, uma reguladora com dentes e um ambiente em que fraude custe caro ao fraudador, não ao acionista lesado. Enquanto isso não existir, cada troca simultânea de CFO e auditor vai continuar sendo o que sempre foi, um sinal de fumaça saindo do porão que os controladores garantem estar limpo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.