As ações da LG Electronics saltaram cinco por cento numa sessão só porque a Nvidia resolveu qualificar a empresa coreana como fornecedora dentro do seu ecossistema de infraestrutura para inteligência artificial. Não houve balanço extraordinário, não houve descoberta tecnológica revolucionária anunciada pela própria LG, não houve nada que justificasse tecnicamente uma valorização daquele porte num único pregão. Houve apenas um aceno da corte imperial de Jensen Huang, e o mercado inteiro se prostrou como se tivesse recebido a bênção papal. Isso, por si só, já é uma notícia econômica de primeira grandeza, embora ninguém queira falar dela pelo que ela realmente representa.

O que se vê é a manchete: acionista da LG ganhou dinheiro, boa notícia, próximo assunto. O que não se vê, e é infinitamente mais importante, é que uma única empresa americana virou o gargalo pelo qual toda a indústria global de tecnologia precisa passar para existir. Quem a Nvidia qualifica, sobe. Quem a Nvidia ignora, some. Quem a Nvidia descredencia, quebra. Não estamos mais diante de um mercado competitivo de fornecedores de infraestrutura para inteligência artificial; estamos diante de um funil monopolístico onde o dono do funil decide, unilateralmente, quem vive e quem morre no capitalismo do século vinte e um.

E aqui a análise fica desconfortável para quem gosta de fórmulas prontas. Esse poder monumental da Nvidia não veio de subsídio estatal, não veio de tarifa protecionista, não veio de decreto presidencial. Veio de decisões corretas tomadas por um sujeito visionário ao longo de vinte anos enquanto todo mundo ria dele. Até aí, é o mercado funcionando como deve funcionar: quem entrega valor superior é remunerado com posição dominante. O problema começa quando a posição dominante conquistada por mérito se transforma em ponto de estrangulamento pelo qual passa a política industrial de meio mundo, e nenhum comprador tem alternativa real. A liberdade de escolher some quando só existe um vendedor, mesmo que esse vendedor tenha chegado lá honestamente.

A LG, do seu lado, entendeu o jogo. Ela não vendeu mais nada de novo naquele dia. Ela apenas foi carimbada. E o carimbo vale cinco por cento de valor de mercado porque o carimbo é a senha de acesso a um mercado que, sem ele, está trancado. Isso deveria fazer qualquer investidor sério parar e pensar: quanto do valor das empresas listadas hoje depende não do que elas produzem, mas de quem elas conseguem convencer a validá-las? A cadeia produtiva mundial virou uma corte medieval onde os grandes fornecedores tecnológicos distribuem títulos de nobreza, e o resto do mercado precata-se em suas antessalas esperando audiência.

Existe uma lição rothbardiana aqui que passa batida. Siga o dinheiro: quem lucrou com essa alta de cinco por cento? Não foi o consumidor final de eletrodomésticos coreanos, obviamente. Não foi o trabalhador da linha de montagem. Foram os fundos de investimento, os acionistas institucionais, os traders que já estavam posicionados, e certamente alguns amigos muito bem informados que compraram na véspera. O anúncio da Nvidia é, na prática, um evento de transferência de riqueza dos que não sabiam para os que sabiam, e isso acontece toda semana em algum canto do mundo financeiro sem que ninguém investigue absolutamente nada.

Fica a pergunta que ninguém no jornalismo econômico brasileiro tem coragem de fazer, ocupados que estão em traduzir releases da Reuters e chamar isso de análise: o que acontece com a economia global no dia em que a Nvidia decidir, por qualquer motivo, geopolítico, regulatório, comercial ou puramente caprichoso, descredenciar alguém do tamanho da LG? A resposta é simples e aterradora. Acontece o mesmo que aconteceu ontem, só que ao contrário, com um sinal de menos na frente. E aí não vai ter cinco por cento de queda, vai ter trinta. O mercado que se curva a um aceno é o mesmo mercado que despenca com um franzir de testa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.