A Medtronic, gigante irlandesa do segmento de dispositivos médicos, tocou nesta semana a mínima de cinquenta e duas semanas, fechando a US$ 74,39. Para quem acompanha o setor de longe, parece apenas mais uma correção numa bolsa nervosa. Para quem entende o jogo, é o retrato de uma empresa que cresceu na sombra do Estado regulador americano e agora paga o preço de ter casado com o sócio errado. Aquele que aprova teu produto também decide quando teu produto deixa de existir, e essa relação nunca foi de igualdade.

Há quem culpe juros, há quem culpe a desaceleração da demanda por procedimentos eletivos, há quem culpe o câmbio. Tudo isso tem um fundo de verdade, mas é olhar para o dedo enquanto o sábio aponta para a lua. O problema estrutural da Medtronic, e de toda a indústria de medtech, é depender de um arranjo onde a Food and Drug Administration decide o ritmo da inovação, o Medicare decide o preço de boa parte do faturamento, e o Congresso americano decide, a cada ciclo eleitoral, se o setor é vilão ou herói. Quem aceita esse contrato vira refém da política, não do consumidor.

Vale lembrar o que ninguém quer enxergar. A reforma de preços de medicamentos e dispositivos imposta pela Casa Branca há alguns anos foi vendida como vitória contra o "lobby da saúde". Era propaganda. Na prática, criou um teto artificial que comprime margens, desestimula a pesquisa de novos produtos e empurra o capital de risco para fora do setor. O que sobra é uma estatal disfarçada de empresa privada, com balanço listado em Nova York e estratégia ditada em Washington. O acionista paga a conta de uma decisão que ele não tomou e que nenhum economista de banco vai apontar, porque o banco também está mamando no mesmo arranjo.

Siga o dinheiro e a cena fica clara. A Medtronic faturou mais de trinta bilhões de dólares no último exercício, mas o crescimento orgânico real, descontando aquisições e câmbio, é pífio. Quanto desse faturamento depende de reembolso governamental? A maior parte. Quanto da margem depende da capacidade de a empresa influenciar comitês técnicos em Washington e Bruxelas? Praticamente toda. Isso não é capitalismo, é mercantilismo do século vinte e um, onde a coroa virou agência reguladora e os mercadores viram lobistas com gravata. E como todo mercantilismo, produz estagnação travestida de estabilidade até o dia em que a ilusão racha.

O investidor brasileiro que olha para essas mínimas como oportunidade precisa entender uma coisa antes de apertar o botão de compra. Não está comprando uma máquina de inovar em medicina, está comprando uma máquina de negociar com burocrata. Tem dia que a negociação corre bem e o papel sobe. Tem dia que muda o governo, muda o secretário, muda o humor do regulador, e o papel apanha sem ter feito nada de errado operacionalmente. É a definição clássica de risco político disfarçado de risco de mercado, e o investidor médio engole o anzol porque o relatório do sell side jura que é "ação defensiva". Defensiva para quem, exatamente?

O fundo desse poço não é fácil de prever, e quem garante que é, está mentindo ou vendendo. O que é fácil de prever é o padrão. Toda vez que o Estado abraça um setor com o discurso de protegê-lo, acaba transformando esse setor numa muleta dependente de subsídio, reembolso e proteção tarifária. Quando a maré vira e o protetor precisa cortar custos, o setor descobre que o abraço era na verdade um nó. Medtronic em mínima de cinquenta e duas semanas não é acidente, é a fatura de um modelo de negócio que terceirizou a soberania para quem nunca quis dividir o lucro, só o risco.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.