A Sunstone Hotel Investors, dona de uma carteira de hotéis de luxo espalhados pelos Estados Unidos, bateu máxima de 52 semanas e o mercado tratou o evento como se fosse mais uma linha no terminal da Bloomberg. Não é. É sintoma. Quando um fundo imobiliário hoteleiro, setor historicamente cíclico e sensível à conjuntura, rompe o teto do ano inteiro em plena era de juros ainda altos nos Estados Unidos, alguma coisa está sendo dita em voz baixa pelo capital, e vale a pena encostar o ouvido.

O que está sendo dito é simples e amargo: dinheiro de verdade está procurando ativo real. Tijolo, lençol, piscina, concierge. Qualquer coisa que respire e produza receita em dólar enquanto o resto do planeta engole a conta da farra fiscal que os governos impuseram durante a pandemia e nunca tiveram coragem de desmontar. A impressora rodou, a dívida inchou, e agora o investidor sofisticado faz o que investidor sofisticado sempre faz quando percebe que o chão está mole: sai do papel e corre para o que você pode tocar com a mão.

E repare na ironia que ninguém no noticiário econômico vai sublinhar. Enquanto o REIT americano celebra máxima histórica, o brasileiro médio descobre que a diária daquele hotel em Miami, que no ano passado cabia no orçamento das férias, hoje custa quase o dobro em reais. Não porque o hotel ficou melhor, mas porque a nossa moeda apanha diariamente de uma política fiscal que trata responsabilidade como palavrão e gastança como virtude. O capital estrangeiro valoriza o ativo americano, o governo brasileiro desvaloriza o cidadão brasileiro, e no meio dessa pinça está o trabalhador que economizou três anos para levar os filhos à Disney.

Siga o dinheiro e a trilha fica ainda mais clara. Fundos de hotelaria como a Sunstone não sobem porque algum burocrata iluminado em Washington teve uma ideia genial. Sobem porque capital internacional, inclusive muito capital latino-americano fugindo de regimes fiscais suicidas, está estacionando poupança em renda imobiliária dolarizada. É o voto silencioso, aquele que não vai para urna nenhuma, mas que define o preço do seu almoço, da sua gasolina e do seu sonho de passagem internacional. O investidor global olhou para o balanço dos países emergentes, olhou para a dívida brasileira galopando, olhou para a política monetária frouxa que ainda vai ser cobrada, e votou com a carteira.

Há quem diga que isso é apenas mercado funcionando. É verdade, e é exatamente aí que mora o diagnóstico incômodo. O mercado está funcionando perfeitamente, fazendo o que sempre fez quando governos perdem a vergonha: separa quem produz valor real de quem produz promessa inflacionária. O hotel em Orange County produz hóspede, receita, lucro, dividendo. O título público brasileiro produz imposto futuro, inflação travestida de juros e a sensação crescente de que a aposentadoria vai valer menos do que a conta de supermercado do mês passado. Entre os dois, o capital escolheu, e a escolha dói porque é correta.

No fim das contas, a máxima da Sunstone não é notícia sobre hotel. É notícia sobre moeda. É notícia sobre a diferença brutal entre país que respeita propriedade e país que trata poupança como reserva técnica do Tesouro para financiar programa eleitoral. Enquanto não entendermos que a bolsa americana subindo é o espelho da nossa bolsa patrimonial encolhendo, continuaremos achando que o problema é o dólar caro, quando o problema de verdade é o real barato por decreto. Hotel não enriquece ninguém sozinho. Governo irresponsável, sim, empobrece todo mundo junto.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.