A cena se repete com a monotonia de um ritual: uma empresa privada chinesa cresce, ganha musculatura, começa a ter caixa próprio, autonomia decisória, poder de barganha. E então, sem aviso e sem cerimônia, o regulador de plantão anuncia uma investigação antitruste, o papel despenca na bolsa, e o mercado inteiro é lembrado, mais uma vez, de que na China não existe empresário, existe apenas concessionário. A Tongcheng Travel acaba de descobrir isso do jeito mais caro possível, vendo bilhões de valor de mercado evaporarem no tempo que leva um comunicado oficial para atravessar a tela do terminal.

Quem acompanha o roteiro sabe que a palavra antitruste, ali, não tem absolutamente nada a ver com o que o termo significa em qualquer manual sério de economia. Não se trata de proteger o consumidor de preços abusivos, não se trata de garantir concorrência num mercado saudável, não se trata de coisa nenhuma que envolva o interesse difuso do cidadão. Trata-se de disciplinar. De lembrar. De reposicionar peças no tabuleiro segundo a conveniência do jogador que detém o monopólio real, que é o monopólio da violência estatal. Antitruste chinês é sinônimo de coleira, e a coleira aparece quando o cachorro anda longe demais da casinha.

Vale seguir o rastro do dinheiro, porque ele quase sempre conta a verdade que o comunicado oficial esconde. Uma investigação antitruste na China não termina em multa e cartilha de boas práticas; termina em reestruturação societária, em fatia obrigatória para algum fundo estatal, em conselho remontado com nomes ligados ao Partido, em dados de usuários compartilhados com órgãos que ninguém elegeu e que ninguém fiscaliza. O que se anuncia como zelo regulatório é, no fundo, uma operação de transferência patrimonial disfarçada de justiça de mercado. E o mais engraçado, num sentido amargo da palavra, é que o investidor ocidental que aplica bilhões em ADRs de empresa chinesa segue fingindo surpresa toda vez que a mão do Estado aparece dentro do bolso da empresa.

Há uma lição maior escondida no episódio, e ela não diz respeito apenas à China. Todo regulador, em qualquer lugar do mundo, opera sob a mesma tentação: usar o poder discricionário que a lei lhe confere para premiar amigos e punir inconvenientes. A diferença é apenas de grau, não de natureza. No país onde o Partido é dono da última palavra, o gesto é brutal e imediato; no Ocidente, é lento, processual, envelopado em pareceres técnicos que ninguém lê. Mas o mecanismo é o mesmo, e o resultado também: capital que deveria estar sendo alocado por quem entende do negócio acaba sendo redirecionado por quem entende de política. Toda vez que um burocrata substitui um empresário na decisão sobre o que produzir, quanto cobrar e para quem vender, o resultado é mais pobreza e menos escolha para o consumidor final. Sempre foi, sempre será.

O caso Tongcheng deveria servir de aviso para quem ainda alimenta a fantasia de que existe um caminho intermediário viável entre livre mercado e planejamento estatal, um tal de capitalismo com características chinesas onde tudo funcionaria melhor porque haveria mão firme corrigindo os excessos. Não existe meio termo. Ou o empresário é dono do que construiu, com direito de errar e de acertar por conta e risco próprios, ou ele é funcionário do Estado com salário volátil e prazo de validade indefinido. O que a Ásia está mostrando ao vivo, para quem tem olhos de ver, é que quando o governo se arroga o direito de decidir quem cresce demais, ninguém cresce de verdade; apenas se arrasta, com um olho no balanço e outro na porta, esperando a hora em que a batida vai chegar.

No fim das contas, a única coisa que caiu junto com o papel da Tongcheng foi mais uma ilusão. A de que empreender sob tutela é empreender. A de que propriedade concedida é propriedade. A de que o dono do capital, no arranjo chinês, é quem aparece no organograma. Quando o regulador bate à porta, o organograma se dissolve, e o dono verdadeiro, aquele que estava lá o tempo todo, mostra a cara. E ela nunca é bonita.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.