As ações ligadas a criptoativos subiram no pré-mercado desta segunda com o Bitcoin cravando o maior nível em sete meses, e a manchete convencional trata o movimento como se fosse mais uma oscilação técnica, mais um "apetite por risco", mais um daqueles enigmas que só os oráculos de terno conseguem decifrar. Não é nada disso. É um plebiscito silencioso, feito diariamente por milhões de pessoas que perderam a paciência de esperar que o presidente do Banco Central de plantão descubra que gastar mais do que se arrecada e imprimir a diferença tem consequências. A consequência tem nome, tem sobrenome, e agora tem cotação em tempo real.

Convém lembrar como chegamos aqui. Durante uma década e meia, os banqueiros centrais brincaram de deus com juros negativos, injeções trilionárias, pacotes de estímulo travestidos de pandemia, de guerra, de transição climática, de qualquer desculpa que servisse ao propósito único de manter o Estado alimentado e os amigos do Estado lubrificados. Cada nova emissão foi vendida ao público como remédio; cada uma delas era, na verdade, mais uma dose do veneno que produziu o problema anterior. E quando o boneco começa a rachar, o mesmo médico aparece receitando mais da mesma coisa, com a mesma cara solene, esperando que o paciente confunda insistência com competência.

O curioso é que o cidadão comum, aquele que nunca leu tratado de economia monetária, entendeu antes dos doutores. Ele viu o preço do arroz, viu o aluguel, viu o combustível, viu o boleto da escola dos filhos, e concluiu, por instinto, que o dinheiro no bolso dele estava evaporando enquanto lhe diziam que a inflação era transitória. Transitória, claro, como todos os impostos criados em caráter emergencial nos últimos cem anos e que continuam lá, firmes, cobrando religiosamente. Foi essa gente, e não os fundos de Wall Street, que primeiro procurou refúgio em algo que ninguém pode imprimir por decreto. O restante veio depois, quando percebeu que ficar de fora custava caro.

Siga o dinheiro e a história fica mais clara. Cada rali do Bitcoin corresponde, com precisão quase constrangedora, a um momento em que algum tesouro nacional anuncia novo endividamento, algum banco central promete cortar juros para "estimular a atividade", ou algum organismo multilateral pede mais coordenação, mais controle, mais vigilância sobre o que você faz com o próprio patrimônio. O ativo digital não sobe porque virou moda entre jovens de tênis colorido; sobe porque é o oposto exato do arranjo que sustenta o poder atual. Não tem presidente, não tem comitê, não tem reunião mensal para decidir se a sua poupança vai ser diluída. E é justamente por isso que tanta gente importante o odeia com paixão de padre em bordel.

Enquanto isso, o coro dos regulamentadores volta ao mesmo refrão de sempre. Precisa proteger o investidor, precisa combater lavagem, precisa evitar risco sistêmico, precisa, precisa, precisa. Estranho como essa preocupação repentina com o bem-estar do cidadão nunca aparece quando o Tesouro emite dívida impagável, quando o Banco Central socorre banco quebrado com dinheiro público, quando o governo cria um novo programa fiscal que só serve para engordar contratado amigo. A proteção seletiva sempre denuncia o interesse verdadeiro; o que incomoda o poder é aquilo que escapa do poder, e é exatamente essa fuga que os gráficos estão desenhando em cores vivas nesta segunda-feira.

Há quem diga que é bolha, que vai estourar, que no fim das contas o Estado sempre vence. Talvez. O Estado tem canhão, tem cadeia, tem imprensa amiga, tem professor universitário para justificar o injustificável. Mas tem também uma dívida crescente, uma moeda desmoralizada e um contingente cada vez maior de gente que já não acredita no folheto oficial. Quando a confiança na promessa impressa acaba, nenhuma reunião de emergência a traz de volta. Os sete meses de alta não são um recorde técnico; são um recibo, entregue por quem está cansado de pagar a conta de uma festa para a qual nunca foi convidado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.