O pregão asiático abriu no vermelho e as petroleiras lideraram o tombo, com os papéis do setor de energia acumulando perdas em Tóquio, Seul, Hong Kong e Sydney enquanto o barril continua sua marcha ladeira abaixo. A cena tem algo de litúrgico, um ritual que se repete a cada ciclo, com analistas de terno bem cortado explicando em tempo real por que o que era certeza ontem virou surpresa hoje. Ninguém previu, ninguém avisou, ninguém assume, mas todos cobrarão bônus no fim do trimestre. É a economia das desculpas convivendo com a economia dos fatos, e os fatos, como sempre, não pedem licença.

Quem acompanha a coisa por dentro sabe que essa dança do petróleo não é acidente meteorológico. Existe do lado da oferta um cartel que finge cortar produção enquanto seus membros trapaceiam entre si, existe do outro lado uma frota americana bombeando xisto como se não houvesse amanhã, e existe no meio disso tudo bancos centrais que passaram a última década injetando liquidez suficiente para inflar todos os ativos do planeta ao mesmo tempo. Quando essa liquidez começa a ser recolhida, o primeiro a sentir é a commodity, porque commodity é o termômetro mais honesto que a economia global tem, imune a comunicado oficial e a projeção de consultoria.

A ironia é que os mesmos governos que passaram anos sabotando o setor de hidrocarbonetos em nome da transição verde agora torcem em silêncio para que o barril se estabilize, porque orçamento fiscal inchado não se sustenta com receita petrolífera minguando. Riade precisa de barril acima de oitenta para fechar as contas, Brasília precisa da Petrobras despejando dividendo para tapar buraco, Moscou precisa de qualquer preço positivo para financiar guerra. Todo mundo depende do petróleo enquanto discursa contra ele, e o mercado, que enxerga essa hipocrisia melhor do que qualquer editorial, precifica a farsa em tempo real.

O investidor asiático que hoje vê seu portfólio derreter está pagando a conta de uma década de dinheiro barato, de subsídio a energia limpa que não entrega energia, de regulação ambiental que encareceu exploração sem reduzir consumo, e de geopolítica gerenciada por burocratas que confundem sanção com estratégia. Cada uma dessas decisões pareceu razoável no momento em que foi tomada, cada uma tinha um relatório técnico embaixo do braço, cada uma foi vendida como progresso civilizatório. O resultado agregado é o gráfico vermelho de hoje, e a conta segue sendo dividida entre quem nunca foi consultado sobre nada.

O que se vê é o preço do barril. O que não se vê é a fábrica que fechou em Osaka porque a energia ficou cara demais, o caminhoneiro paquistanês que perdeu o emprego, o aposentado coreano cujo fundo de pensão apostava em Petrochina, a família filipina que agora paga mais pela panela de arroz porque o frete disparou meses atrás e não voltou. Volatilidade não é abstração de gráfico, é gente real sendo triturada por decisões tomadas em salas onde ninguém pergunta o nome delas. E enquanto isso, quem imprimiu, regulou, subsidiou e sancionou vai para casa com o salário em dia.

A lição que essa queda ensina, e que ninguém quer aprender, é que o mercado de energia não obedece a plano quinquenal, a meta climática ou a discurso em Davos. Ele obedece a oferta, demanda e ao lastro monetário do dinheiro em que é cotado. Enquanto os planejadores continuarem achando que podem substituir esse mecanismo por vontade política, os investidores continuarão descobrindo, sempre da pior maneira, que a realidade cobra juros compostos. O petróleo hoje está barato porque muita coisa está errada, e o remédio para isso não virá de nenhum ministro.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.