O anúncio saiu com a pompa habitual dos grandes conglomerados indianos, aquela linguagem burocrática que tenta fazer transação de bilhões parecer decisão de rotina. O Grupo Tata vai desembolsar US$ 2,6 bilhões para comprar a fatia que a família Shapoorji Pallonji, o famoso SP Group, detém na Tata Sons, holding que controla o império. As ações das empresas do grupo, listadas em Mumbai, reagiram com o entusiasmo de quem recebe conta de restaurante caro: caíram. E caíram por um motivo que qualquer camelô entende melhor que analista de banco, ninguém fica feliz vendo empresa boa gastando dinheiro para apagar incêndio doméstico em vez de investir em máquina, tecnologia ou expansão.

Quer dizer, olhe para o desenho da coisa. O SP Group, controlado pela família Mistry, é acionista minoritário da Tata Sons há quase um século. Nos últimos anos, virou pedra no sapato da administração: brigas judiciais, tentativa de listar a participação em bolsa, questionamento sobre governança. A saída negociada é apresentada como pacificação, mas pacificação de família rica sempre tem o mesmo preço, é o acionista comum que financia a paz. Os bilhões que agora sairão do caixa consolidado poderiam estar comprando fábrica, poderiam estar bancando pesquisa em semicondutor, poderiam estar remunerando quem carregou a ação nos anos ruins. Em vez disso, vão liquidar disputa hereditária. É o clássico caso do que se vê e do que não se vê, o comunicado oficial mostra a assinatura do acordo, mas não mostra os projetos que morreram para financiá-lo.

Me diz uma coisa, quando foi que conglomerado virou sinônimo de eficiência? A tese de que empresa boa cresce comprando participação de sócio incômodo é a mesma tese que sustenta feudo medieval, o senhor absorve o vassalo rebelde e chama isso de consolidação. O mercado indiano, que carrega no DNA um capitalismo dinástico onde meia dúzia de famílias controla um terço do PIB, oferece o laboratório perfeito para ver o custo real desse arranjo. Cada vez que o Tata precisa fazer um movimento desses, cada vez que o Reliance briga com irmão, cada vez que o Adani entra em rota de colisão com regulador, o capital escapa pela lateral. E quem paga a conta é o investidor pulverizado, aquele que comprou a ação achando que estava investindo em siderurgia, mineração ou telecom, e descobre que estava, na verdade, financiando o divórcio de dois clãs.

A defesa oficial dirá que o negócio remove incerteza, simplifica a estrutura societária e libera a Tata Sons para tocar seus planos sem interferência. Bonito no papel, e completamente irrelevante para quem entende como funciona alocação de capital. Se a empresa está saudável, briga de sócio não trava crescimento, resolve-se com dividendo, com recompra ordenada, com abertura de capital da holding. Pagar US$ 2,6 bilhões à vista para calar o minoritário é confissão implícita de que a administração prefere autonomia à disciplina do mercado. E autonomia sem disciplina, no mundo dos negócios como no mundo da política, é a antecâmara da má gestão. Não por acaso, os melhores retornos de longo prazo vêm de empresas com governança aberta, controle disperso e acionistas ativos, exatamente o oposto do modelo dinástico que a Tata acaba de reforçar.

Há também o detalhe geopolítico que ninguém quer discutir. A Índia se apresenta hoje como a alternativa manufatureira à China, o destino do capital que fugia do risco Xi Jinping. Investidor estrangeiro olha para transações como essa e enxerga o filme inteiro, país onde regulador acomoda famílias tradicionais, onde bolsa é vitrine mas controle é sempre privado, onde o pequeno acionista serve para dar liquidez mas jamais para influenciar decisão. É a mesma dinâmica que travou o desenvolvimento coreano por décadas antes das reformas dos chaebols, é a mesma que segura o crescimento potencial de meia dúzia de economias emergentes. Enquanto o poder econômico não estiver submetido às mesmas regras que valem para o padeiro da esquina, todo discurso sobre modernização é encenação para relatório de consultoria.

No fim, a lição é a de sempre e ninguém aprende. Quando o dinheiro corre para dentro do bolso em vez de correr para dentro da fábrica, quando bilhões financiam paz de família em vez de comprar produtividade, quando o comunicado triunfante vende como estratégia aquilo que é apenas resolução de conflito privado, o mercado tem razão em castigar. A queda das ações não é irracionalidade de curto prazo, é o julgamento sóbrio de quem sabe contar. E contar, no capitalismo verdadeiro, ainda é a virtude que separa o negócio da bagunça.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.