Ações britânicas estão baratas. Não um pouco baratas, não descontadinhas, não em oferta de meia-estação. Estão em uma pechincha histórica que faria qualquer investidor com memória de longo prazo salivar. O índice londrino negocia a múltiplos que, em qualquer outro mercado desenvolvido, seriam classificados como sinal de falência iminente ou guerra civil na porta. E, no entanto, o dinheiro global continua desfilando para Nova York pagar trinta vezes lucro por empresa de software que promete lucrar em 2032. Alguma coisa nessa história não fecha, e quem sabe ler balanço percebe rápido onde está o truque.
O truque, claro, tem nome e endereço. Uma economia que passou quinze anos apanhando de política monetária errática, de um Banco Central que confundiu impressora com bombeiro hidráulico e de uma classe política que transformou o país no laboratório permanente de experimentos regulatórios. Cada libra emitida sem lastro produtivo virou desconto embutido no preço dos ativos. Cada tributo novo empurrou capital para paraísos com clima pior e regras melhores. O mercado não é burro; ele precificou décadas de má gestão e agora oferece as empresas britânicas ao preço do sucateiro. O que se vê é o desconto. O que não se vê é o rastro de destruição de capital que produziu esse desconto.
Aqui entra a parte que os relatórios de banco de investimento tratam com pinças, porque desmontar a narrativa oficial custa mandato. A Bolsa de Londres é barata porque o Reino Unido puniu quem produz, subsidiou quem lobista e chamou o resultado de política industrial. Energia cara por decreto verde, imposto sobre lucro extraordinário que virou lucro ordinário confiscado, sindicalização travestida de modernização trabalhista. Quando o Estado vira sócio majoritário sem colocar capital, o preço das ações cai até refletir essa sociedade forçada. Siga o dinheiro dos subsídios climáticos e você encontrará exatamente as empresas cotadas em Londres pagando a conta, com os acionistas minoritários no fim da fila.
A tese contrária, aquela do papel barato demais para ignorar, tem mérito matemático e defeito filosófico. Matematicamente, sim, você compra fluxo de caixa a preço de banana e no longo prazo o preço converge para o valor. Filosoficamente, o problema é que valor pressupõe direito de propriedade estável, e ninguém está garantindo isso na ilha. Um governo que apronta uma reforma tributária a cada dois anos, que fala em imposto sobre riqueza como se fosse solução para produtividade, que trata o investidor estrangeiro ora como salvador ora como parasita, esse governo não oferece contrato, oferece roleta. Barato pode ficar mais barato quando o denominador é a confiança institucional.
E ainda tem a dimensão que os planejadores centrais adoram varrer para debaixo do tapete. Uma sociedade que perde o vínculo com o próprio patrimônio produtivo, que vê suas empresas emblemáticas serem devoradas por fundos americanos, chineses e árabes por conta de desconto absurdo, essa sociedade não está fazendo negócio, está liquidando estoque. E não é liquidação por eficiência de mercado, é liquidação por incompetência regulatória. A oikofilia industrial, o afeto que uma nação nutre pelas coisas que constrói, morre quando o preço das próprias criações desmorona no pregão. Restam museus e nostalgia.
A verdade que ninguém quer imprimir em manchete é esta: ativo barato num país em decomposição institucional é armadilha travestida de oportunidade, e ativo barato num país em processo de correção é o negócio da década. Diferenciar os dois exige olhar para além do preço, para o rumo. E o rumo do Reino Unido ainda não escolheu se quer voltar a ser potência produtora ou terminar de virar parque temático com bandeira. Enquanto essa decisão não sai, quem compra Londres compra loteria, não desconto.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.