A notícia chega embrulhada em papel de presente. Os preços dos terrenos no Japão subiram, as ações do setor imobiliário reagiram em festa, e os corretores de Tóquio fazem cara de quem descobriu a pólvora. Só que essa pólvora já explodiu na cara dos japoneses uma vez, e o estrondo durou trinta anos. Quem tem memória curta chama isso de recuperação. Quem tem memória lembra que o Japão passou três décadas pagando a conta da última vez em que os terrenos subiram assim.
Quer dizer, ninguém acorda um belo dia e resolve que um pedaço de chão vale o dobro por virtude própria. Terreno não produz nada sozinho, não gera lucro operacional, não paga dividendo. O que faz o preço do metro quadrado saltar é dinheiro barato batendo à porta procurando onde se esconder. E dinheiro barato, no Japão, é política de Estado desde que o Banco Central resolveu que juro negativo era criatividade monetária. Chamam de estímulo, é subsídio disfarçado. Chamam de política acomodatícia, é a impressora rodando com boas maneiras.
Olha, siga o rastro do iene e a mágica se desfaz. O banco central injeta liquidez a rodo, os grandes fundos precisam alocar esse dinheiro em algum lugar, e o algum lugar acaba sendo tijolo. Não porque o japonês médio ficou mais rico, ou porque a demografia do arquipélago melhorou, ou porque famílias jovens estão comprando apartamento em Shinjuku. Nada disso mudou. A população continua encolhendo, o interior continua esvaziando, aldeias inteiras estão sendo abandonadas ao mato. Mas o metro quadrado sobe. Pergunte a si mesmo quem está comprando, e você vai encontrar não a dona de casa de Osaka, e sim o fundo de pensão canadense, o family office de Singapura, o BlackRock da vida procurando refúgio para o dinheiro que o Banco do Japão despeja no sistema.
Aqui entra o truque que os manuais escondem. O que se vê é a festa das construtoras, as ações verdes no pregão, os terrenos valorizados, os proprietários com sorriso amarelo. O que não se vê é o jovem japonês de 28 anos que jamais vai comprar um imóvel porque o preço descolou do salário há muito tempo. O que não se vê é o poupador que guardou a vida inteira e vê seu iene virar pó porque o governo precisa manter juro artificialmente baixo para sustentar essa farsa. O que não se vê é o capital que deixou de ir para uma fábrica, para uma pesquisa, para uma pequena empresa produtiva, porque encontrou mais rentabilidade especulando com terreno subsidiado por política monetária frouxa.
E o Japão sabe. Sabe porque já viveu isso. Nos anos oitenta o metro quadrado de Ginza custou mais que o PIB de países inteiros, e o japonês médio acreditou que a fórmula era eterna. Quando a bolha estourou em 1990, o país entrou numa deflação de trinta anos que os economistas ainda não sabem explicar direito. Ou melhor, sabem, mas não convém dizer, porque a resposta é constrangedora. A resposta é que quando o governo distorce o preço do dinheiro, distorce todos os preços da economia, e quando o preço do dinheiro volta ao normal, todos os preços entram em colapso ao mesmo tempo. Não existe correção suave depois de intervenção massiva. Existe ressaca proporcional à bebedeira.
O curioso é a plateia. Analistas de terno bem cortado saem em rede nacional dizendo que o setor imobiliário japonês está "aquecido", que há "recuperação estrutural", que os "fundamentos justificam". Fundamentos. Como se prédio vazio em cidade que perde população fosse fundamento. O que justifica esse preço é o mesmo que justificou o preço em 1989, uma máquina de imprimir dinheiro operando em regime industrial e uma classe financeira alinhada em torno do interesse comum de não deixar a música parar. Quando a música parar, alguém vai ficar sem cadeira. E como sempre, quem vai ficar em pé é o contribuinte, o poupador, o assalariado, o cidadão comum que nunca foi convidado para essa festa mas vai pagar a limpeza.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.