Uma autoridade iraniana solta a frase seca de que o acordo sobre Ormuz não será assinado na reunião de segunda-feira, e o mundo inteiro desconta a informação no preço do barril antes mesmo do café da manhã. É assim que funciona o teatro: um funcionário anônimo abre a boca em Teerã, o petróleo sobe em Cingapura, o motorista paulistano paga mais caro no posto da esquina na terça. Ninguém votou nisso, ninguém foi consultado, e mesmo assim todos pagam a conta de uma negociação que sequer sabemos se existe de fato ou se é apenas mais um capítulo da novela persa.
Vale a pena olhar para o que não se vê nessa história. O que se vê é a manchete sobre o acordo travado. O que não se vê é a máquina inteira de subsídios, hedge estatal, política de paridade artificial e intervenção cambial que existe justamente porque governos do mundo inteiro se acostumaram a tratar o petróleo como variável política, e não como mercadoria. Ormuz é apenas o pretexto mais recente. Antes foi o Canal de Suez, antes foi a OPEP dos anos 70, antes foi Kuwait, e sempre haverá o próximo estreito, o próximo ditador, o próximo pretexto para justificar por que a sua gasolina custa o que custa.
Siga o dinheiro e a fotografia melhora. Quem ganha com a instabilidade permanente em Ormuz? As mesmas empresas de energia que financiam think tanks que aparecem na CNN pedindo mais presença militar no Golfo. Os mesmos bancos que operam derivativos de commodities e adoram volatilidade porque volatilidade é onde a corretagem engorda. Os mesmos governos que usam o susto do barril para justificar aumento de imposto sobre combustível sob a desculpa de que agora é hora de transição energética. A paz em Ormuz seria uma catástrofe para muita gente poderosa, e por isso a paz em Ormuz nunca vem.
O Irã, por sua vez, joga o único jogo que consegue jogar. Um regime que arruinou a própria economia com décadas de planejamento central, sanção mal administrada e clero mandando em engenheiro descobriu que o único ativo geopolítico que ainda tem valor é a capacidade de sugerir que pode fechar uma torneira. É a barganha do falido, o cassetete do sem projeto. Enquanto isso, a população iraniana, essa sim vítima real, paga inflação de dois dígitos e vê o rial derreter porque os aiatolás preferem financiar milícia no Líbano a permitir que o próprio povo compre trigo a preço decente.
No Brasil, o efeito chega mastigado e disfarçado. Sobe o barril lá fora, sobe o combustível aqui, sobe o frete, sobe o tomate, e no fim do trimestre o Banco Central aparece dizendo que a inflação foi puxada por choque externo, coitadinho, ninguém tem culpa. É a desculpa perfeita para não olhar para o buraco fiscal doméstico, para a farra do gasto, para a impressora rodando quieta no fundo do palácio. Toda vez que um sheik espirra, um ministro brasileiro respira aliviado porque ganhou mais um mês para empurrar a conta da irresponsabilidade fiscal para debaixo do tapete geopolítico.
A lição é sempre a mesma e nunca é aprendida. Enquanto energia for tratada como arma política, e não como bem econômico produzido em mercado livre, o cidadão comum vai continuar sendo o soldado raso de guerras que não declarou, em desertos que nunca pisou, negociadas por gente que ele nunca elegeu. Ormuz não é o problema. Ormuz é o sintoma. O problema é a ideia, repetida em Brasília, Washington, Teerã e Bruxelas, de que alguém em uma sala fechada tem o direito de decidir quanto você vai pagar amanhã para encher o tanque do seu carro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.