Uma empresa de biotecnologia chinesa chamada Adlai Nortye foi convidada a subir ao palco da conferência anual de saúde do Morgan Stanley para apresentar seu programa de inibidores de RAS, aquela família de proteínas que aparece torta em quase todo tumor sólido e que, há quatro décadas, os laboratórios do mundo inteiro tentam neutralizar sem sucesso consistente. A notícia vem embrulhada no papel celofane típico do setor, palavras como pipeline promissor, mecanismo diferenciado, marco clínico, o vocabulário litúrgico que serve para hipnotizar quem não tem paciência para ler o rodapé do prospecto.

Olha, quando um banco de investimento de Nova York organiza uma feira e convida uma empresa que quase ninguém acompanha para brilhar no palco central, quem está sendo beneficiado não é a ciência, é a máquina de precificação. O Morgan Stanley cobra taxa de assessoria, cobra taxa de subscrição quando essas empresas emitem novas ações, cobra taxa de market making quando o papel oscila, cobra taxa de tudo. A conferência de saúde é a vitrine onde ele apresenta as mercadorias que vai vender depois. E o vendedor sempre elogia a mercadoria, isso é tão antigo quanto o mercado de tapetes de Damasco.

Me diz uma coisa, alguém pensou em quem paga o custo real desse teatro? Paga o investidor de varejo que compra a ação na alta depois do hype da apresentação, paga o fundo de pensão que precisa mostrar exposição a biotech no relatório trimestral, paga, indiretamente, o contribuinte americano e chinês, porque boa parte da pesquisa oncológica é subsidiada com dinheiro público em ambos os países, e o retorno, se vier, é privatizado. A ciência é socializada nas universidades e nos institutos estatais, e o lucro é capturado por quem tem acesso ao palco do Morgan Stanley. É um arranjo bonito para quem está em cima, doloroso para quem está embaixo.

Há ainda o detalhe geopolítico que ninguém quer tocar. Uma biotech chinesa, em plena guerra comercial e tecnológica entre Washington e Pequim, sendo palanqueada por um banco americano, isso não é acidente. É sinal de que o dinheiro, quando cheira lucro, atravessa fronteiras que os discursos oficiais juram serem intransponíveis. Enquanto políticos dos dois lados posam de patriotas em púlpito, os bancos e as farmacêuticas fazem o que sempre fizeram, otimizam o portfólio. O nacionalismo é para o eleitor, o cosmopolitismo é para o acionista.

E os inibidores de RAS em si? A molécula pode até funcionar, pode revolucionar o tratamento de câncer de pulmão, pâncreas, cólon, quem sabe. Mas o histórico do setor é implacável, para cada droga que chega ao mercado, dezenas morrem na fase três, e as ações que subiram na euforia da fase dois desabam sem aviso. O investidor comum descobre tarde demais que a apresentação em Miami ou São Francisco era peça de captação, não anúncio de cura. A cura, se vier, virá anos depois, e quem lucra na hora certa raramente é quem comprou pelo discurso.

O ciclo se repete há décadas com nomes diferentes, moléculas diferentes, siglas diferentes, e o resultado é sempre o mesmo. Alguém sobe ao palco, o banqueiro aplaude, a imprensa especializada replica, o papel valoriza, o executivo exerce a stock option, e o pequeno investidor fica segurando o mico quando a notícia negativa vaza seis meses depois. Não é conspiração, é a natureza do jogo. Só que ninguém explica isso ao contribuinte que financiou o laboratório universitário onde a molécula nasceu.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.