A notícia veio embrulhada em papel de presente, com aquele verniz técnico que costuma silenciar o cidadão comum. A AEVEX Aerospace, uma empresa da Califórnia especializada em sistemas aéreos não tripulados, acaba de assinar um contrato de US$ 92,2 milhões com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos para dar suporte ao programa de testes hipersônicos. Traduzindo do dialeto do Pentágono para o português dos mortais, isso significa que o contribuinte americano vai financiar, mais uma vez, o brinquedo caro de um seleto grupo de empresas que aprenderam há décadas que o negócio mais rentável do planeta não é vender para o mercado, é vender para o Estado.

Olha, o mecanismo é sempre o mesmo, e é de uma elegância quase artística. Você cria uma ameaça externa, seja ela real, exagerada ou completamente inventada; convence o Congresso de que sem gastar bilhões o país vai ser invadido por chineses, russos ou marcianos; abre a torneira do Tesouro; e canaliza o dinheiro para meia dúzia de contratantes que, por coincidência absoluta, contratam ex-generais como conselheiros e financiam campanhas dos dois lados do espectro político. O contrato de teste hipersônico da AEVEX não é uma anomalia, é a regra. É o modelo de negócio.

Quer dizer, vamos fazer a conta que ninguém faz. Noventa e dois milhões de dólares saem do bolso de um sujeito que dirige caminhão em Ohio, de uma enfermeira em Phoenix, de um pequeno comerciante em Miami. Esse dinheiro poderia ter ficado com eles, poderia ter sido investido, poupado, gasto em coisas que essas pessoas efetivamente valorizam. Em vez disso, foi confiscado via imposto e transferido para uma corporação que vai produzir tecnologia que talvez, num futuro incerto, seja usada em alguma guerra que ninguém pediu. Isso não é defesa nacional, é redistribuição de renda dos que produzem para os que lobbyam.

E o mais delicioso da armação é que quem ousa questionar o esquema é imediatamente rotulado de ingênuo, antipatriótico ou, o clássico dos clássicos, de agente estrangeiro. Como se fosse impossível defender a existência de uma nação sem entregá-la de mão beijada para o oligopólio dos fornecedores militares. Como se a segurança de um país dependesse necessariamente de contratos bilionários sem concorrência real, com auditoria de fachada e sobrepreços que fariam corar qualquer empreiteira brasileira. A cerca da defesa nacional foi construída para proteger o cidadão, não para engordar acionista.

Enquanto isso, o mesmo Tesouro americano que acha dinheiro para hipersônico chora miséria quando o assunto é reforma da previdência, controle do déficit ou simples honestidade contábil. A dívida pública dos Estados Unidos passou dos trinta e cinco trilhões de dólares e continua subindo em ritmo de foguete, com o perdão do trocadilho. A conta dessa farra não vai ser paga por quem assina os contratos hoje, vai ser paga pelos filhos e netos de quem nem sequer votou nos políticos que assinaram. Isso tem nome em qualquer código civil decente: é fraude intergeracional.

O teste hipersônico da AEVEX vai acontecer, o míssil vai voar, os generais vão bater palma numa base fechada em Nevada, e a próxima rodada de contratos já está sendo negociada nos corredores do Pentágono antes mesmo dessa terminar. É o ciclo perpétuo do complexo industrial-militar, uma máquina que se autoalimenta e cuja única função real é converter dinheiro público em lucro privado sob o pretexto nobre da segurança nacional. Quem entende isso não precisa de conspiração, precisa apenas de aritmética básica e um pouco de honestidade intelectual.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.