O AL Sydbank recomprou trinta e cinco mil das próprias ações na semana 38, dentro de um programa maior de recompra que segue seu curso previsível, dinamarquês, entediante no melhor sentido da palavra. Nada de coletiva emocionada, nada de tuíte messiânico do presidente, nada de manchete anunciando "pacote histórico". Apenas uma nota fria, técnica, comunicando ao mercado que a instituição usou o próprio caixa para reduzir o número de papéis em circulação. E aqui está o escândalo silencioso: num continente onde a palavra de ordem virou "captar", "arrecadar", "tributar", ainda existe alguém devolvendo dinheiro a quem confiou o dinheiro.

Repare no gesto. Recompra de ações significa, na prática, o seguinte: a empresa olha para o próprio balanço, conclui que tem sobra de caixa, e decide que o melhor destino desse dinheiro não é uma aquisição megalomaníaca, não é um bônus faraônico para a diretoria, não é uma nova sede com pé direito de dez metros, mas simplesmente devolver o capital aos acionistas concentrando o valor nos papéis restantes. É o oposto exato da lógica estatal, que quando sobra dinheiro inventa programa, e quando falta dinheiro inventa imposto. O banco privado, quando bem administrado, reconhece que aquele caixa pertence a alguém e age em conformidade. O ente público, sempre, invariavelmente, acha que o caixa pertence a ele.

Chama atenção também o tamanho da operação. Trinta e cinco mil ações não é a compra bilionária que faz manchete de Financial Times, é o trabalho miúdo e constante de uma instituição que executa aquilo que prometeu. Programas de recompra funcionam assim quando são levados a sério: fatias pequenas, semanais, previsíveis, sem tentativa de tirar proveito do timing do mercado, sem os malabarismos que costumam esconder manipulação. É a versão financeira daquilo que os antigos chamavam de virtude: fazer o combinado, no prazo combinado, sem alarde. E, convenhamos, virtude anda em falta no mercado financeiro global.

O contraste com o resto do Ocidente é doloroso. Enquanto isso, países que se dizem sérios discutem taxar recompra de ações como se fosse pecado capital, sob o argumento sociológico de que o dinheiro "deveria" ir para investimento produtivo, ou para salários, ou para qualquer destino que o burocrata local considere moralmente superior. É a velha pretensão de saber melhor que o dono do dinheiro o que fazer com o dinheiro do dono. Ninguém pergunta ao aposentado que investiu suas economias no banco se ele prefere receber capital de volta ou financiar mais uma aventura corporativa. A resposta seria constrangedora demais para os defensores da tributação virtuosa.

Siga o dinheiro e a mecânica se revela cristalina. A recompra reduz o número de papéis, cada acionista remanescente passa a deter uma fatia maior da empresa, o valor por ação tende a subir, e o capital que retorna ao mercado busca novos usos produtivos escolhidos por quem tem pele em jogo, não por quem tem cadeira em ministério. É o sistema de preços funcionando como deveria, sinalizando onde o capital gera retorno e onde é queimado. Cada intervenção governamental nesse mecanismo, seja imposto sobre recompra, seja obrigação de reinvestimento, seja "orientação" sobre destinação de lucros, é ruído deliberado num sinal que já funcionava.

Talvez a lição maior esteja no que o AL Sydbank não fez. Não pediu ajuda estatal, não implorou por linha de crédito subsidiada, não estruturou incentivo fiscal para justificar o gesto, não fez marketing de virtude com o próprio caixa. Simplesmente executou o programa aprovado, comunicou ao mercado, seguiu adiante. Num mundo em que empresa grande vive de mamar no cofre público disfarçando dependência de "parceria estratégica", ver um banco regional operar como banco, sem fantasia e sem tutela, é quase um ato de rebeldia. O verdadeiro capitalismo é este, e é por isso mesmo que anda tão raro.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.