Um fundo dá prejuízo e paga dividendo no mesmo trimestre. Se você acha isso estranho, parabéns, seu senso comum ainda funciona. A Albion Technology & General VCT, um daqueles Venture Capital Trusts britânicos que investem em empresas de tecnologia em estágio inicial, acaba de publicar resultado negativo e, no parágrafo seguinte do mesmo comunicado, avisa aos acionistas que haverá distribuição. A pergunta que ninguém no mercado financeiro educado tem coragem de fazer é a mais simples: distribuição de quê, exatamente, se a companhia perdeu dinheiro no período?

A resposta está na engenharia fiscal que sustenta esse tipo de veículo desde os anos noventa. O VCT é uma criatura de laboratório regulatório: o investidor britânico que aplica nele ganha isenção de imposto de renda de trinta por cento sobre o valor investido, isenção sobre ganho de capital e isenção sobre dividendos recebidos. Traduzindo do juridiquês para o português honesto, o Tesouro de Sua Majestade abre mão de arrecadar para que capital privado corra atrás de startups que, sem essa muleta fiscal, ninguém financiaria. O dividendo, portanto, não vem do lucro operacional, vem da realização de posições antigas, de reservas acumuladas em anos gordos, ou simplesmente de devolver ao cotista parte do próprio dinheiro dele, agora vestido de rendimento para justificar a existência do arranjo.

Siga o dinheiro e a trama se descortina. Quem paga a conta do prejuízo? O cotista, formalmente. Quem paga a conta do subsídio fiscal que atrai o cotista a aceitar esse risco? O contribuinte britânico, aquele que jamais será consultado sobre se prefere financiar startups de tecnologia ou consertar a estrada esburacada em frente à sua casa. Quem embolsa a taxa de administração independentemente de o fundo ganhar ou perder? Os gestores, evidentemente, que continuam sacando comissão sobre patrimônio administrado mesmo quando o patrimônio encolhe. É o desenho perfeito de socialização de perdas com privatização de tarifas, e ninguém no comunicado oficial vai chamar isso pelo nome.

Existe uma ilusão persistente de que capital de risco só floresce sob o abraço protetor do Estado, e essa ilusão precisa ser desmontada com a paciência de quem explica aritmética a criança teimosa. Quando o governo decide, por decreto, que determinada classe de ativo merece tratamento fiscal privilegiado, ele não está criando riqueza, está redirecionando capital que teria ido para outro lugar, provavelmente mais produtivo, porque o preço de mercado ainda contém alguma informação útil sobre onde os recursos rendem mais. O que se vê é o unicórnio ocasional que a imprensa celebra. O que não se vê são as dezenas de negócios sólidos, sem apelo tecnológico, que não conseguiram capital porque o dinheiro estava correndo atrás do incentivo fiscal, não da oportunidade real.

E o dividendo pago sobre prejuízo? Esse é o detalhe estético do arranjo, a maquiagem que mantém o cotista dócil e a estrutura viva. Sem o dividendo trimestral, o investidor pequeno começaria a fazer perguntas embaraçosas sobre por que continua ali. Com o dividendo, mesmo que descapitalizante, a narrativa se sustenta: eu invisto, recebo isenção fiscal na entrada, recebo pinguinho trimestral, e um dia, quem sabe, uma das participações vira a próxima gigante. A esperança é grátis, o subsídio não. E a conta chega, sempre chega, dissolvida na inflação, no imposto de outro contribuinte, ou no serviço público que deixou de ser prestado porque o dinheiro estava financiando startups em Londres.

O caso da Albion não é escândalo, é rotina. É o funcionamento normal de um capitalismo capturado, onde o mercado deixou de ser o lugar onde poupança encontra investimento por mérito e virou balcão de negociação de privilégios legislados. Investidor sério lê o balanço, entende a mecânica, e decide por si. Contribuinte inglês, esse sim, deveria estar indignado, porque está pagando por um jantar que jamais foi convidado a comer.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.