Altos funcionários dos Estados Unidos e da China voltaram a se encontrar em Nova York para preparar o terreno da próxima cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping, e a imprensa financeira trata o evento como se fosse a assinatura de um armistício em Versalhes. Não é. É apenas mais um capítulo daquela peça encenada há décadas, em que dois governos que passaram anos jogando tarifas na cara um do outro descobrem, milagrosamente, que precisam conversar. E conversam sobre o quê? Sobre o preço da soja, do chip, do aço, do lítio, das terras raras. Ou seja, sobre coisas que jamais deveriam estar na pauta de burocrata nenhum, porque o preço dessas mercadorias já era decidido, com muito mais eficiência, por milhões de compradores e vendedores antes que Washington e Pequim resolvessem brincar de planejadores centrais do planeta.
Olha, o roteiro é tão previsível que dá preguiça de comentar. Primeiro, o governo americano ergue uma tarifa em nome da segurança nacional, um conceito tão elástico hoje em dia que serve para proteger desde submarino nuclear até fabricante de parafuso em Ohio. Depois, o governo chinês retalia protegendo suas próprias estatais, que aliás nunca deixaram de ser protegidas. E aí, quando o custo da encenação começa a apertar o bolso de quem manda cheque para campanha, os mesmos que armaram o cerco sentam para desarmar parcialmente, cobrando concessões mútuas como se fossem heróis da paz. É o clássico bombeiro piromaníaco: incendeia a casa, apaga meia sala, e sai carregado nos ombros pelos vizinhos agradecidos.
Quer dizer, siga o dinheiro e a fumaça se dissipa. Cada tarifa imposta em nome do trabalhador americano se traduz, na prática, em preço mais alto no supermercado do Kansas e margem gorda para o lobista que conseguiu enfiar seu setor na lista de protegidos. Cada subsídio chinês para semicondutores significa fábrica de mão de obra barata sustentada por poupança confiscada do camponês de Anhui, que jamais verá um chip na vida. Os dois governos praticam a mesma modalidade de pilhagem, apenas com sotaques diferentes, e depois se sentam à mesma mesa para dividir o butim e chamar isso de diplomacia. Nova York vira o cassino onde a banca sempre ganha, e a banca, aqui, é composta de bancos de investimento, empreiteiras estatais e conglomerados de tecnologia que financiaram ambos os lados da disputa.
Me diz uma coisa: alguém já parou para pensar quanto custaria o comércio entre americanos e chineses se ninguém em terno estivesse envolvido? Custaria o preço do frete, do risco e da margem do vendedor. Custa hoje isso mais tarifa, mais compliance, mais licença de exportação, mais inspeção portuária, mais advogado de comércio internacional, mais o salário do funcionário público que carimba o documento que autoriza o outro funcionário público a liberar a mercadoria. Multiplique por bilhões de transações e você tem a resposta para a pergunta que ninguém faz: por que o custo de vida sobe mesmo quando a produtividade global explode? Sobe porque cada aperto de mão em Nova York deixa um rastro de papelada que precisa ser paga, e a fatura vem embutida no preço da geladeira, do celular, do remédio.
Há ainda o teatro geopolítico, que serve para justificar o resto. Fala-se em Taiwan, em fentanil, em espionagem industrial, em inteligência artificial, e cada tema real se transforma em moeda de troca para benefício de setor específico. É a velha regra do intervencionismo: uma medida gera distorção, a distorção pede outra medida, e no fim ninguém sabe mais o que se está negociando, apenas que é preciso continuar negociando porque parar seria admitir que a bagunça toda foi criada pelos próprios negociadores. E enquanto isso, a fábrica de Ohio fecha, a fábrica de Shenzhen migra para o Vietnã, o consumidor paga mais caro nos dois países, e o comunicado oficial fala em progresso construtivo nas conversas bilaterais.
O que se vê é a foto sorridente na Quinta Avenida. O que não se vê é a poupança corroída pela inflação que financiou os subsídios, o pequeno importador que quebrou porque não conseguiu decifrar a nova regra tarifária, o engenheiro chinês forçado a trabalhar em projeto ideológico em vez de projeto lucrativo, e a próxima geração dos dois países que herdará dívidas montanhosas para pagar essa dança diplomática. Quando políticos anunciam que vão nos salvar do outro governo, a única atitude sensata é fechar a carteira e trancar a porta, porque a salvação, historicamente, sai mais cara que o problema. E dessa vez, como todas as anteriores, a conta chega pontualmente, endereçada a quem nunca foi consultado.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.