A Ameren, gigante americana de energia elétrica que atende Missouri e Illinois, acaba de despejar no mercado US$ 900 milhões em notas subordinadas júnior com vencimento em 2057. Trinta e um anos de prazo. Uma criança que nasce hoje vai estar entrando na crise da meia-idade quando essa dívida finalmente vencer, se é que vencerá, porque essas coisas costumam ser roladas indefinidamente, empilhadas umas sobre as outras como cartas de baralho, até o dia em que alguém sopra e o castelo desaba na conta de quem menos podia.
Notas subordinadas júnior, para quem não é do ramo, são o degrau mais baixo da escada de credores. Se a empresa quebrar, esses coitados recebem depois de todo mundo, inclusive do porteiro. Em troca desse risco, pagam juros mais gordos. E a Ameren, como toda utility regulada, sabe que pode pagar juros gordos porque quem financia a farra, no fim do mês, é o consumidor final via tarifa autorizada pela agência reguladora. É o arranjo mais confortável do capitalismo moderno, se é que ainda podemos chamar isso de capitalismo. Endivida-se com risco alto, paga-se prêmio de risco alto, e passa-se a fatura para o cativo que não tem escolha de fornecedor.
Olha, o que ninguém explica quando aplaude essas emissões bilionárias é o que acontece do outro lado da operação. O dinheiro que entra na Ameren não brotou de árvore. Saiu do bolso de fundos de pensão, de seguradoras, de investidores institucionais que precisam de rendimento em um mundo onde os bancos centrais quebraram a curva de juros com décadas de dinheiro fácil. Essa mesma expansão monetária que empurrou capital para essas emissões duvidosas é a que corrói o poder de compra do salário do sujeito que vai pagar a conta de luz reajustada nos próximos trinta e um anos. Bonito arranjo.
Me diz uma coisa: em que outro setor da economia uma empresa consegue emitir dívida com vencimento em 2057 e ter fila de comprador? Só naquele em que o fluxo de caixa é garantido por lei, protegido por barreira regulatória e blindado contra concorrência. A Ameren não corre risco de perder cliente para o vizinho porque não existe vizinho autorizado a competir. É monopólio geográfico com verniz de mercado, e quem chancela essa cartelização legalizada é a mesma burocracia que depois posa de fiscalizadora do interesse público. Quem regula, quem é regulado e quem paga a conta formam um triângulo em que só o último não tem cadeira na mesa.
O prazo de 2057 não é acidente contábil, é declaração de intenção. Essas dívidas são projetadas para nunca serem realmente pagas, apenas rolarem eternamente, como o intervencionismo que as sustenta. Cada rolagem é uma nova comissão para o banco de investimento, uma nova taxa para o assessor jurídico, uma nova rodada de bônus para o CFO que "estruturou brilhantemente" a operação. Enquanto isso, o consumidor que abre a fatura mensal não faz a menor ideia de que está financiando a aposentadoria de gente que ele nunca vai conhecer, morando em ilhas que ele nunca vai pisar.
Toda vez que se estica um vencimento por décadas, alguém está apostando que a inflação futura vai comer o principal antes que ele precise ser honrado. É a mesma lógica dos governos que emitem títulos de trinta anos sabendo que vão imprimir moeda para pagá-los com pó de arroz. Notas subordinadas júnior com vencimento em 2057 são um manifesto silencioso de descrença no próprio dólar em que estão denominadas. Quem tem olho para ver, vê. E quem paga a luz no fim do mês sente, mesmo sem entender o mecanismo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.