Os igarapés estão virando poeira, os peixes agonizam à flor da água como se fossem folhas mortas, e os anfíbios, esses bichinhos que respiram pela pele numa engenharia biológica que nenhum ministério jamais compreenderá, estão literalmente sufocando no ar seco que o El Niño despejou sobre a Amazônia. É a segunda temporada consecutiva do mesmo drama, e a floresta, essa senhora de milênios que já viu impérios climáticos irem e virem muito antes de existir Brasília, dá sinais de fadiga. O fato concreto é este, e é duro: bichos morrendo, rios sumindo, e uma população ribeirinha vendo o seu quintal virar deserto temporário.
Agora observe o segundo ato, que é sempre o mesmo teatro. Toda vez que a Amazônia espirra, aparece uma tropa inteira de salvadores profissionais com o dedo estendido para o seu bolso. Institutos, fundações, agências, secretarias, coordenadorias, observatórios, comitês interministeriais, tudo brotando como cogumelo depois da chuva que, ironicamente, não veio. Cada tragédia climática é uma nova rodada de financiamento, uma nova linha orçamentária, um novo edital, uma nova viagem a Genebra, Dubai ou Belém, onde os mesmos senhores de terno claro discutirão em ar condicionado de vinte graus como salvar o sapo que eles nunca viram na vida. Pergunte a qualquer um deles o nome científico da perereca da várzea e observe o silêncio constrangedor.
Faça a conta e siga o rastro. O Fundo Amazônia acumulou bilhões, o Fundo Clima idem, os repasses internacionais somam outros tantos, e ainda assim, quando o bicho seca de verdade, a resposta é sempre a mesma: precisamos de mais recurso. Mais recurso para quê? Para relatório, para consultoria, para diária, para simpósio, para camiseta com logotipo bordado. O peixe morto no Solimões não recebeu um centavo, o ribeirinho que perdeu a lavoura tampouco, mas a estrutura burocrática que se autodenomina defensora da floresta acaba de ganhar mais um andar em algum prédio envidraçado. Quem paga é o brasileiro no posto de gasolina, no supermercado, na conta de luz. Quem recebe é o de sempre, aquela casta que descobriu que a natureza, além de bela, é lucrativa quando administrada por decreto.
Existe uma pequena inconveniência lógica que ninguém quer encarar. Se o problema é o clima planetário, o Brasil pouco pode fazer sozinho, e enfiar mais imposto no produtor rural do Mato Grosso não vai baixar um grau na temperatura global. Se o problema é local, então a solução seria proteger propriedade, garantir posse fundiária, permitir que quem vive na floresta a explore com racionalidade e cuide dela como se cuida daquilo que é seu. Ninguém lava carro alugado, ninguém aduba terreno de aluguel, e ninguém protege floresta que oficialmente pertence a uma abstração chamada União. O dono cuida, o inquilino saqueia, e essa é uma lei mais antiga que qualquer tratado climático.
O que ninguém dirá em rede nacional é o óbvio ululante: o El Niño já secava esta bacia quando os europeus ainda achavam que o mundo era plano, e voltará a secar quando todos os ministros atuais forem apenas nome grafado em placa comemorativa esquecida no corredor de algum instituto. A floresta não precisa de gestor público, precisa de gente com título de propriedade, com pele em jogo, com filho para deixar herança. O resto é retórica de púlpito, choro coreografado em coletiva de imprensa, e aquele velho artifício de transformar tragédia natural em cheque em branco assinado pelo contribuinte. O peixe morre, o sapo ressecа, e no fim do ciclo alguém compra apartamento novo em Brasília. Sempre foi assim, sempre será, enquanto o pagador da conta continuar acreditando que o problema se resolve com mais do mesmo.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.