A Arrive AI anunciou a nomeação de um novo diretor de receita e a promoção interna do seu diretor de tecnologia, e o mercado bateu palmas educadas como se isso fosse notícia. Vamos ao que interessa. Uma empresa cria um cargo chamado "chief revenue officer" quando precisa convencer o mercado de que a receita virá, não quando ela já está ali fluindo em avalanche. É o equivalente corporativo de contratar um sommelier antes de comprar as garrafas. O gesto é simbólico, e no mundo das startups de inteligência artificial, símbolos custam caro e valem pouco.
Olha, o padrão se repete com uma regularidade quase litúrgica. Startup levanta capital farto num ambiente de juros que ainda carrega a ressaca da farra monetária dos últimos anos, contrata executivos com títulos pomposos, distribui equity como se fosse confete de carnaval, e depois vai à imprensa vender governança como se governança gerasse caixa. Não gera. Gera despesa fixa, gera burocracia interna, gera reuniões intermináveis onde adultos discutem OKRs enquanto o runway encolhe silenciosamente na planilha do CFO.
Quer dizer, a lógica de mercado é impiedosa e por isso mesmo é justa. Uma empresa que entrega valor real ao cliente não precisa de um exército de C-levels para explicar sua proposta de valor; o cliente paga, volta e recomenda. Já a empresa que precisa de organograma sofisticado antes de ter tração está tentando construir a fachada do palácio antes de escavar o alicerce. E o alicerce, no capitalismo real, é sempre o mesmo: alguém dispôs a tirar dinheiro do próprio bolso e entregar em troca do seu produto. Sem isso, todo o resto é encenação financiada por investidor otimista.
Me diz uma coisa, quem realmente ganha com esse tipo de anúncio? Os executivos recém-nomeados, óbvio, que agora carregam títulos que valorizam seus currículos independentemente do que aconteça com a empresa. Os fundos que precisam justificar aos seus cotistas que a companhia está "profissionalizando a gestão" antes da próxima rodada. As boutiques de relações públicas que cobram por comunicado. E os veículos de notícias que preenchem espaço editorial com press releases requentados. O acionista minoritário que comprou na abertura de capital acreditando numa história de transformação tecnológica? Esse fica olhando o gráfico e rezando.
O que não se vê nesse tipo de manobra é justamente o mais importante. Não se vê a receita recorrente por cliente, não se vê o custo de aquisição, não se vê a margem operacional, não se vê a taxa de retenção. Vê-se organograma. Vê-se biografia de executivo. Vê-se aquele vocabulário empresarial esterilizado que serve para tudo e não significa nada, "escalar operações", "acelerar go-to-market", "otimizar o funil". Traduzindo do corporativês para o português: precisamos vender mais, ainda não estamos vendendo o suficiente, e contratamos alguém para descobrir como.
A verdade nua é que o setor de inteligência artificial vive hoje o mesmo delírio que o setor pontocom viveu no fim do século passado, com uma diferença cruel. Naquela época, pelo menos as empresas fingiam ser lucrativas antes de quebrar. Hoje elas nem se dão ao trabalho, porque descobriram que o mercado paga múltiplo de receita, e às vezes múltiplo de promessa, sem exigir múltiplo de lucro. Nomear diretor de receita numa startup ainda em busca de tração é o rito de passagem antes da próxima captação, ou antes do próximo write-off. Quem viveu ciclo econômico sabe qual dos dois é mais provável.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.