Toda vez que um banco de investimento global publica sua lista de "riscos que o mercado precisa monitorar", o leitor atento deveria fazer o exercício inverso e perguntar: o que este relatório está deliberadamente deixando de fora? O Citi vem agora, com ar solene de médico diante do paciente, elencar cinco preocupações que, segundo ele, os investidores não podem ignorar. Inflação persistente, juros elevados por mais tempo, desaceleração chinesa, tensão geopolítica e concentração excessiva em poucas ações tecnológicas. Uma lista impecável, tecnicamente irrepreensível, e absolutamente desonesta na origem.
Porque olha, quatro desses cinco "riscos" não são acidentes climáticos que caíram sobre o mercado como uma tempestade tropical. São filhos legítimos, com paternidade reconhecida em cartório, das mesmas políticas monetárias que os bancos centrais executaram nos últimos quinze anos, com aplauso dos mesmos analistas que hoje escrevem relatórios preocupados. A inflação persistente veio da impressora ligada em regime de rotação industrial durante a pandemia. Os juros altos que agora "preocupam" o mercado são a conta que chega depois do banquete de crédito barato. A concentração em meia dúzia de gigantes de tecnologia é o resultado direto de anos financiando bolha com dinheiro artificialmente barato. O que se vê no relatório é o sintoma; o que não se vê, e ninguém tem coragem de dizer, é que o médico é o mesmo que envenenou o paciente.
Siga o dinheiro e a coisa fica mais interessante. O Citi, como todo grande banco de Wall Street, viveu quinze anos gordos das taxas próximas de zero, das operações alavancadas, do carry trade em economias emergentes, dos serviços de assessoria para fusões financiadas com crédito subsidiado. Agora, com o ciclo virando, o mesmo banco publica um relatório dizendo aos clientes de varejo para tomarem cuidado com o cenário que ele ajudou a criar e do qual lucrou copiosamente. É como o incendiário virar consultor de brigada contra incêndios, cobrando hora extra pela expertise.
Sobre a China, uma nota especial de sarcasmo. O relatório trata a desaceleração chinesa como enigma oriental, como se fosse peculiaridade cultural inexplicável. Não é. É o desfecho previsível de três décadas de planejamento central disfarçado de capitalismo de Estado, com bolha imobiliária gigantesca construída sobre crédito estatal, empresas zumbis mantidas vivas por bancos públicos, e demografia despencando por causa de uma política de filho único que só um regime que despreza escolha individual poderia ter implementado. Não há mistério, há apenas o resultado de décadas ignorando que nenhum burocrata em Pequim consegue processar a informação que milhões de pessoas fazendo trocas voluntárias processam naturalmente. Só que dizer isso num relatório oficial é impensável, porque desagrada os clientes que ainda sonham em vender iogurte para o mercado chinês.
Quanto à tensão geopolítica, é o único item da lista que talvez mereça o status de risco genuinamente exógeno, embora até nisso haja uma camada de responsabilidade que o relatório esquece. A militarização do dólar como arma de política externa, as sanções em cascata, o congelamento de reservas soberanas, tudo isso empurrou meio mundo a buscar alternativas ao sistema financeiro ocidental. O tiro saiu pela culatra e agora se contabiliza a fragmentação como se fosse fenômeno natural, quando é resposta racional de países que perceberam que confiar no sistema é confiar no arbítrio de quem controla o interruptor.
A verdadeira preocupação que os investidores deveriam ter, e que jamais aparecerá em relatório de Citi, JP Morgan ou qualquer outro, é esta: continuar confiando o próprio patrimônio a um sistema em que os fabricantes do problema também são os vendedores da solução, os analistas do diagnóstico e os beneficiários do remédio. Cinco preocupações? A rigor é uma só, e ela está sentada no conselho de política monetária, imprimindo a próxima crise enquanto vende consultoria sobre a atual.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.