A notícia caiu como um copo d'água na cara de quem ainda acreditava em conto de fadas republicano. O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, recebeu informações sigilosas nos dias que antecederam a Operação Compliance Zero, e as digitais deixadas no vidro do cofre apontam, segundo apuração exclusiva da Revista Oeste, para o gabinete de um dos ministros mais poderosos do Supremo Tribunal Federal. O mesmo togado que decreta prisões preventivas com a naturalidade com que se pede um cafezinho, o mesmo que enterra celulares sob camadas de sigilo eterno quando o alvo é conveniente, teria transformado o próprio despacho em serviço postal do investigado. É a raposa vestida de guarda-noturno, contratada para vigiar o galinheiro e alimentada pelas galinhas.

Pergunte-se o óbvio, aquela pergunta que nenhum comentarista de televisão terá a coragem de fazer sob os holofotes patrocinados pelo próprio réu institucional: quem paga essa festa e quem embolsa o troco? O contribuinte paga o salário do ministro, paga a estrutura do tribunal, paga os assessores, paga a segurança, paga o jatinho da Força Aérea, paga até o café importado que serve de combustível para os despachos noturnos. E quem recebe? O banqueiro amigo, que ganha tempo para esconder documento, avisar sócio, esvaziar conta e preparar a narrativa antes que a Polícia Federal bata na porta. O aviso prévio, no mercado do crime organizado, vale mais que ouro. E parece que, no andar de cima da República, ele é distribuído como brinde de posto de gasolina.

Existe uma regrinha simples que os antigos já sabiam, e que os romanos gravaram em pedra antes que os nossos senadores gravassem propina em pen drive: se o guardião da lei é ele próprio quem viola a lei, então não há lei, há apenas o capricho do guardião. O sigilo processual nasceu para proteger o investigado inocente contra a fofoca do inquérito. Foi sequestrado, ao longo dos anos, para virar arma de chantagem contra o inimigo político e cortina de fumaça para o amigo do rei. Quando o sigilo protege o poderoso e expõe o dissidente, ele já não é sigilo, é privilégio. E privilégio, no vernáculo original, significa literalmente lei privada, lei feita para um só. Estamos vendo a lei privada do togado ser exercitada em rede nacional, e ainda assim há quem chame isso de Estado de Direito.

Repare no silogismo que se monta sozinho, sem esforço, quase pedindo licença para existir. Toda operação sigilosa exige, por definição, que ninguém do lado de fora saiba dela antes da hora. Vorcaro sabia dela antes da hora. Logo, alguém do lado de dentro contou. E como o círculo dos que sabiam se resumia a um punhado de gabinetes, o exercício deixa de ser dedutivo e vira aritmética de padaria. Não é preciso ser detetive vitoriano para fechar a conta. Basta ter os dedos da mão e coragem de contar em voz alta, coisa que a maior parte da imprensa perdeu quando trocou a apuração pelo aceno.

Historicamente, esse é o ponto em que as repúblicas começam a apodrecer pelo pescoço. Roma resistiu enquanto os senadores fingiam respeitar o Senado; degringolou quando descobriram que era mais lucrativo vender decreto do que promulgá-lo. Veneza sobreviveu séculos porque punia com afogamento o doge que soprava informação para o mercador amigo. Aqui, o afogamento virou aposentadoria compulsória com salário integral, gabinete conservado e livro de memórias na Companhia das Letras. O crime não compensa, dizem eles, e completam baixinho: para quem não tem toga.

No fim das contas, essa história não é sobre um banqueiro nem sobre um ministro, é sobre um arranjo. O arranjo em que o monopólio da força se converteu em monopólio da informação, e o monopólio da informação virou moeda de troca entre os que mandam e os que pagam para continuar mandando. O cidadão que trabalha, declara imposto, paga IPTU, aguenta fila do SUS e ainda ouve, à noite no telejornal, que precisa confiar nas instituições, esse cidadão é o único otário do enredo. Paga o ingresso, paga a pipoca, paga o ator, paga o roteirista, e no fim ainda leva bronca do diretor por reclamar do filme. O rei está nu, o banqueiro está avisado, e o togado está fingindo indignação diante do próprio espelho.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.