A notícia chegou seca, quase burocrática: a Casa Branca segurou o pacote de armas para Taiwan e a Anduril, fabricante de sistemas autônomos que virou símbolo da nova indústria bélica americana, engasgou. A empresa, avaliada em dezenas de bilhões, depende de uma canetada em Washington para faturar. Não é livre mercado, é feudo. E o senhor feudal, nesta rodada, resolveu esperar para ver o que consegue arrancar de Pequim antes de liberar as remessas para a ilha.
Olha, o arranjo é o de sempre, só que agora aparece nu. A indústria de defesa americana não vende para quem quer comprar; vende para quem o governo autoriza que compre. Isso significa que cada dólar de receita da Anduril não vem de um consumidor soberano avaliando produto e preço, vem de uma decisão política que pode virar do avesso conforme a conveniência da mesa de negociação. Quando o produto é armamento, todo mundo entende que existe controle. O que ninguém quer admitir é que esse controle transformou o setor num braço da diplomacia, e as ações listadas em bolsa são, no fundo, apostas sobre o humor de um homem só.
Quer dizer, a Anduril foi vendida ao mercado como a startup que ia consertar o Pentágono, com drones inteligentes, software próprio, custo baixo, agilidade de silício. Bonito no PowerPoint. Na vida real, ela é tão dependente de aprovação política quanto a Lockheed dos anos setenta, só que com moletom em vez de terno. O capital de risco que a inflou até aqui apostou que Washington continuaria hostil à China o suficiente para manter o fluxo de contratos abertos. Basta o presidente hesitar uma semana, e o valuation trema. Isso não é empresa, é opção comprada sobre a política externa americana.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais clara. Taiwan quer se defender, tem recursos, tem urgência, tem contrato assinado. A Anduril quer entregar, tem capacidade, tem interesse, tem acionistas cobrando. Existe comprador, existe vendedor, existe preço. O que não existe é permissão. E a permissão está travada porque o presidente calcula que segurar as armas pode render alguma concessão comercial de Pequim, algum aceno em tarifas, algum ganho pessoal na foto da próxima cúpula. O taiwanês vulnerável vira moeda de troca, o fornecedor americano vira estatística de balanço trimestral, e o contribuinte que pagou os subsídios de pesquisa da tal indústria de ponta assiste tudo do sofá.
E aqui está a lição que ninguém quer aprender: sempre que o Estado se mete a decidir quem vende, quem compra e quando, o resultado é distorção. Empresas deixam de competir por produto e passam a competir por lobby. Fundos de investimento deixam de analisar tecnologia e passam a analisar humor presidencial. Aliados estrangeiros deixam de confiar em contratos e passam a rezar por eleições favoráveis. É a economia planejada disfarçada de segurança nacional, com a diferença de que aqui os planejadores usam gravata cara e falam inglês. O prejuízo, no fim, é sempre do mesmo lugar: da produtividade real, que fica esperando a burocracia decidir se pode existir naquela semana.
A ironia final é doce. A Anduril nasceu prometendo furar o cartel dos gigantes militares tradicionais, aqueles que engordaram durante décadas mamando em contratos federais. Bastaram alguns anos para ela descobrir que o problema nunca foi a incompetência dos velhos fornecedores, era a natureza do cliente. Quando o cliente é o Estado, e o Estado é operado por um homem que decide na base do instinto, toda inovação vira aposta política. Não existe libertação tecnológica possível enquanto o botão de liga e desliga estiver na mão de quem gosta de brincar com ele.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.