O número saiu discreto, quase envergonhado, embalado naquela linguagem morna de release corporativo que serve para anestesiar acionista distraído. Avax registrou queda de 4,4% no lucro líquido do primeiro semestre, e o comunicado veio recheado de explicações técnicas sobre margem, backlog e cronograma de obras. Traduzindo do idioma dos departamentos de relações com investidores para o português dos mortais, a companhia ganhou menos dinheiro num período em que o país inteiro esteve mergulhado em anúncios pomposos de PAC, novo arcabouço fiscal e o eterno bordão do investimento em infraestrutura. Se com o cofre público escancarado a empresa encolheu, o problema não está no ciclo, está no modelo.

Toda construtora de médio e grande porte no Brasil vive amarrada num casamento tóxico com o orçamento da União, dos estados e das prefeituras. O faturamento não depende de convencer o consumidor a comprar algo melhor por preço menor, depende de vencer edital, sobreviver a aditivo, aguentar atraso de repasse e rezar para que o secretário de infraestrutura da vez não caia em delação. É um mercado que se apresenta como privado mas respira pelo pulmão do Tesouro, e por isso mesmo é o primeiro a soluçar quando o soluço financeiro chega. A queda de 4,4% não é acidente, é sintoma da tal doença crônica de quem escolheu ser dependente químico do gasto público.

Vale olhar o que não se vê no balanço. Cada obra pública contratada é apresentada como emprego gerado, cidade transformada, futuro construído, e a foto do ministro cortando a fita rende manchete por uma semana. O que ninguém mostra é a fila de projetos privados que não saíram do papel porque o capital foi drenado por tributação para financiar aquela mesma obra, é a pequena empresa que fechou por não conseguir crédito enquanto os bancos oficiais priorizaram os campeões nacionais escolhidos a dedo em Brasília, é a produtividade que despenca porque recurso escasso foi alocado por critério político, não econômico. A construtora aparece nas fotos, o contribuinte aparece na conta.

E o mais divertido é ver o mercado financeiro reagir a esses resultados como se fossem enigmas insondáveis. Analistas de banco escrevem relatórios sobre pressão de custos, ciclo de investimentos e sensibilidade a taxa de juros, sempre com aquela seriedade litúrgica de quem descobriu a pólvora. Ninguém tem coragem de dizer o óbvio, que empresa cuja receita depende de licitação é ativo político disfarçado de ativo produtivo, e que o preço da ação oscila menos com competência de gestão do que com resultado de eleição, discurso de presidente do BNDES e humor do relator do orçamento no Congresso. Isso não é capitalismo, é uma versão tropical de compadrio institucionalizado.

O setor de construção pesada no Brasil já deu ao país três décadas de aula sobre como o abraço do Estado esmaga quem o recebe. As gigantes que dominavam o mercado nos anos 2000 viraram cinzas quando a fonte de comissão secou e a Lava Jato desenhou o esquema no quadro negro. As remanescentes aprenderam pouco, continuam apostando no mesmo modelo de sobreviver à custa de obra pública com dinheiro de imposto e financiamento de banco estatal subsidiado, quer dizer, ainda mais dinheiro do contribuinte. A cada ciclo, o resultado é o mesmo, lucro privatizado quando dá certo, prejuízo socializado quando dá errado, e o brasileiro comum bancando as duas pontas.

Enquanto isso, a economia real, aquela feita por milhões de gente pequena que arrisca capital próprio, produz sem subsídio e concorre sem edital, segue asfixiada pela carga tributária que financia justamente essa festa de empreiteira. Uma queda de 4,4% no lucro semestral de uma empresa desse porte deveria ser lida como advertência, não como notícia menor de página interna. É o modelo dando sinais de que a mamadeira está mais rala do que os acionistas gostariam de admitir, e que talvez esteja na hora de aprender aquilo que qualquer padeiro do interior sabe desde sempre, quem depende de favor de político morre no dia em que o político troca de humor.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.