O conselho do Baillie Gifford US Growth Trust pediu formalmente aos acionistas que rejeitem os candidatos indicados pela Saba Capital, o fundo de Boaz Weinstein que há meses vem comprando participações em investment trusts britânicos com o mesmo enredo, entrar, gritar que o desconto sobre o valor patrimonial é escândalo, empurrar recompras agressivas ou liquidação parcial, embolsar o prêmio e sair. O trust argumenta que trocar a governança agora é entregar a estratégia de longo prazo, focada em empresas de crescimento americanas, a alguém cujo horizonte de investimento cabe num trimestre. E tem razão em enxergar o truque.

Olha, existe uma indústria inteira que se vende como guardiã dos acionistas, e essa indústria vive de um mal-entendido conveniente. Ela chama de criação de valor aquilo que é apenas realização antecipada de valor alheio. Comprar cota com desconto, forçar o veículo a recomprar ou distribuir ativos ao preço cheio e sair antes que o próximo trimestre revele o buraco, isso não é gestão, é arbitragem financeira travestida de reforma corporativa. O que se vê é o discurso lustroso sobre governança. O que não se vê é o cotista de longo prazo que fica com uma carteira menor, menos diversificada e sem o composto de dez anos que o veículo foi montado para entregar.

Me diz uma coisa, por que esses ativistas quase nunca aparecem em fundos que negociam com prêmio? Por que só surgem quando há desconto para capturar? Porque a tese nunca foi corrigir má gestão, foi extrair um spread. É o mesmo padrão do sujeito que compra a casa da esquina, arranca o jardim, transforma em estacionamento, aluga por seis meses e vende. Chama de modernização. O bairro chama de outra coisa. E quando o mecanismo se repete em série, veículo após veículo na Grã-Bretanha, o efeito agregado é a destruição de uma categoria inteira de poupança paciente que financiava empresas de crescimento reais, produtivas, de longo ciclo. A ferramenta era boa. A caravana passou por cima.

Siga o dinheiro e o enredo se ilumina. Quem ganha com a liquidação parcial forçada? O ativista, que sai com prêmio. Quem paga? O cotista minoritário que não tinha capital nem tempo para se defender, o gestor que perde escala e é forçado a vender ativos ilíquidos na pior janela, e o próprio mercado de capitais britânico, que assiste ao esvaziamento de um instrumento centenário de captação para inovação. A retórica é sempre a mesma, estamos aqui pelos pequenos. Traduzindo do original, estamos aqui pelo nosso próprio bônus, e usaremos os pequenos como escudo retórico até o registro de saída.

Existe uma diferença civilizacional entre proprietário e especulador, e ela não está no direito de comprar e vender, está na relação com aquilo que se possui. Proprietário zela, transmite, aceita o ciclo longo porque entendeu que riqueza real se constrói em décadas. Especulador extrai, gira, empacota. Uma economia madura precisa dos dois, mas colapsa quando confunde um com o outro e entrega o comando do primeiro ao segundo em nome de uma métrica trimestral. O conselho do trust está, no fundo, defendendo algo mais antigo que a próxima assembleia, o direito de o capital paciente existir num mundo viciado em impaciência.

E aqui está a lição que ninguém quer escrever nos relatórios anuais. Nem toda oferta é oportunidade, nem toda reforma é melhora, nem todo desconto no valor patrimonial é ineficiência a ser corrigida. Às vezes o desconto é o preço que o mercado cobra para carregar volatilidade de longo prazo, e quem chega prometendo eliminá-lo com engenharia financeira está vendendo perpetuum mobile em terno de Savile Row. Recompra forçada não é criação de riqueza, é reembalagem de riqueza existente com uma taxa embutida para o embalador. Quem entende isso vota contra. Quem não entende, aprende na próxima recessão, com juros.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.