A cena é digna de comédia grotesca. Os funcionários do banco estatal mais rentável do país, aquele que estampa propaganda em horário nobre e patrocina evento cultural em cada esquina, decidiram parar as agências porque a proposta da direção não contemplou adequadamente o Saúde Caixa. Traduzindo do bancarês para o português de padaria: querem que o brasileiro que ganha salário mínimo, faz fila no SUS e morre esperando consulta de cardiologista, continue bancando o plano de saúde premium de uma casta privilegiada. E o pior é que dizem isso em rede nacional, com microfone na mão, sem o menor traço de constrangimento.

Convém lembrar o desenho da engenhoca. A Caixa Econômica Federal é empresa pública, ou seja, seus lucros, prejuízos, benefícios e mordomias entram e saem do mesmo caldeirão, o Tesouro Nacional. E o Tesouro, aquele senhor gordo e paternal da propaganda, não produz um centavo sequer; apenas extrai, à ponta do fuzil regulatório, aquilo que o trabalhador da iniciativa privada gerou suando a camisa. Portanto, quando o sindicato bate na mesa exigindo mais para o Saúde Caixa, não está negociando com a diretoria da empresa, está negociando com o bolso do balconista de supermercado em Teresina, do motorista de aplicativo em Curitiba, do pequeno comerciante de Cuiabá.

Existe uma velha regra romana, quando quiser entender qualquer conflito, pergunte a quem aproveita. A greve não aproveita ao cliente, que fica sem sacar o benefício, sem pagar boleto, sem resolver financiamento. Não aproveita ao contribuinte, que paga a folha dos grevistas mesmo quando eles não trabalham. Não aproveita à economia, que trava. Aproveita, apenas e tão somente, ao próprio corporativismo bancário, que percebeu há décadas que a greve num banco estatal é o instrumento mais barato de extorsão política jamais inventado, porque quem sofre a pressão não é o dono do negócio, o dono do negócio é uma abstração jurídica chamada União, e o pagador é uma massa amorfa e desorganizada de sessenta milhões de otários fiscais.

Compare, só por diversão intelectual, com a padaria da esquina. Se o padeiro cruzar os braços e exigir plano de saúde de operadora premium, o dono da padaria responde com a única resposta possível no mundo real, ou aceita o salário que a padaria comporta ou vai procurar seu lugar no mercado. Não há Tesouro para socorrer, não há contribuinte para ordenhar, não há governo para intermediar. A relação é limpa, direta, honesta. Já no andar de cima, onde o dinheiro nunca é de ninguém e sempre é de todos, a chantagem se veste de direito adquirido, o privilégio se traveste de conquista histórica, e o roubo institucional recebe nome de negociação coletiva.

A defesa do Saúde Caixa nada mais é do que a defesa da apartheid brasileira, aquela linha invisível que separa quem pinta e borda dentro da máquina estatal daquele contingente enorme que financia a farsa. O sujeito da agência tem plano diferenciado, aposentadoria diferenciada, estabilidade diferenciada, e ainda assim se coloca na condição de vítima explorada pelo capital, quando na verdade é o capitalzinho arrancado à força do bolso alheio que o sustenta em situação de conforto vitalício. É preciso um talento retórico considerável para transformar privilégio em martírio, e o movimento sindical bancário domina essa alquimia como poucos.

No fim, a pergunta que interessa é sempre a mesma, aquela que os grandes jornais fingem não ouvir e os telejornais tratam de abafar com trilha sonora comovente. Quem paga a conta desse plano de saúde premium, dessa greve confortável, dessa negociação sem risco? Paga o cidadão comum, que jamais será convidado para a mesa, jamais terá voz no acordo, jamais receberá um centavo de volta. E quem recebe? Recebe a casta que descobriu, ainda no berço da República, que servir ao Estado é o negócio mais lucrativo do país, desde que o Estado tenha à disposição um exército inesgotável de trouxas para tosquiar.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.