As atas da reunião de setembro do Banco do Canadá saíram e trouxeram a confissão envergonhada de sempre: os diretores enxergam "riscos elevados de inflação" e por isso hesitam em cortar juros com a coragem que o mercado esperava. Traduzindo do dialeto tecnocrático para o português dos mortais, os senhores que passaram anos imprimindo dinheiro como quem imprime panfleto de campanha agora descobriram, com espanto quase infantil, que dinheiro impresso vira preço subindo. É como o incendiário que corre até o hidrante e reclama que o fogo demora a apagar.

Convém lembrar o roteiro. Durante a pandemia, o balanço do Banco do Canadá quintuplicou em questão de meses, o governo federal despejou trilhões em programas emergenciais que viraram permanentes, e a receita foi vendida ao contribuinte como generosidade estatal. Ninguém avisou ao canadense médio que aquela mesada saía do bolso dele por dois canais simultâneos, o imposto que ele já paga e o imposto invisível que corrói o poder de compra do salário. Agora, cinco anos depois, o preço da casa em Toronto é uma piada obscena, o aluguel em Vancouver expulsa família da cidade, e a comida no supermercado subiu mais que qualquer aumento salarial. E os mesmos senhores das atas escrevem, com cara de quem descobriu a pólvora, que "os riscos permanecem elevados".

Há uma covardia analítica aqui que merece nome. Ao falar em "riscos de inflação" como se fosse fenômeno meteorológico, uma nuvem que aparece no radar sem causa, o banco central se exime da autoria. A inflação não é chuva nem vento, é decisão política. Cada ponto percentual acima da meta representa uma escolha específica, feita por gente com nome e cargo, de financiar déficit com moeda em vez de com imposto explícito, porque imposto explícito derruba governo e imposto pela impressora deixa o cidadão apenas confuso, sem saber a quem culpar.

E siga o dinheiro que a fotografia fica nítida. O beneficiário direto da inflação canadense é o próprio governo federal, cuja dívida gigantesca é corroída em termos reais a cada trimestre de preço subindo. O segundo beneficiário é o sistema bancário, que ganha spread nas duas pontas do ciclo, primeiro empurrando crédito barato quando o banco central pisa no acelerador, depois cobrando juro alto quando o mesmo banco central pisa no freio. O terceiro beneficiário são os grandes proprietários de ativos, cujas casas e ações se valorizam nominalmente enquanto o assalariado vê seu poder de compra evaporar. O perdedor é sempre o mesmo, o sujeito que trabalha, poupa em moeda e não tem lobby em Ottawa.

O que se vê nas manchetes é o banco central "combatendo a inflação com prudência". O que não se vê é que essa mesma instituição fabricou a inflação que agora finge combater, e que a chamada prudência atual é apenas a versão institucional do ladrão que devolve metade da carteira e espera aplauso. O canadense honesto, aquele que abriu conta poupança nos anos duros esperando comprar uma casa modesta, descobriu que a poupança encolheu, a casa dobrou de preço, e a explicação oficial vem em ata bilíngue de vinte páginas cheia de eufemismo.

A lição é velha e nunca é aprendida, porque quem deveria aprendê-la é justamente quem lucra com o esquecimento. Enquanto existir um monopólio estatal sobre a moeda operado por um comitê que responde politicamente e não juridicamente, esse ciclo vai se repetir, com nomes diferentes, siglas diferentes, atas cada vez mais elegantes. A verdade nua é que banco central não cura crise inflacionária, apenas administra a que ele mesmo fabricou, e prepara a próxima enquanto pede paciência ao cidadão exausto. Prudência de bombeiro piromaníaco não é virtude, é cinismo institucionalizado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.