Existe uma pergunta que atravessa séculos e que qualquer sujeito que ousa produzir riqueza no Brasil já ouviu, dita com aquele sorrisinho de canto de boca que denuncia inveja fantasiada de virtude cívica: quem lhe deu autorização para isso? A pergunta parece inocente, quase burocrática, mas carrega dentro dela o veneno mais antigo da nossa formação, a suspeita de que quem enriquece por conta própria está, de algum modo, roubando algo que pertencia à coletividade abstrata que jamais produziu coisa alguma. Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul, viveu e morreu sob essa pergunta, e a resposta que deu com a própria vida foi tão estrondosa que até hoje incomoda os herdeiros espirituais dos que mandaram matá-lo.

O sujeito nasceu em 1849, num Paraná que era pouco mais que floresta interrompida por picadas de tropeiro, e resolveu que erva-mate, madeira e trilhos de ferro eram assunto sério demais para ficar esperando o governo imperial descobrir que a província existia. Montou moinho, montou banco, montou ferrovia, montou porto, articulou o escoamento da produção paranaense para o mundo quando o mundo mal sabia apontar Curitiba no mapa. Fez tudo isso com capital próprio, com sócios convidados, com risco assumido, com o dinheiro que ganhava sendo reinvestido no chão que pisava. Não havia BNDES, não havia fundo garantidor, não havia comitê de sustentabilidade nem selo de responsabilidade social. Havia trabalho, cálculo e o instinto raríssimo de enxergar valor onde os outros viam apenas mato.

E aqui mora o detalhe que os manuais escolares insistem em não contar. Toda a infraestrutura que hoje se atribui à genialidade planejadora do Estado brasileiro, no caso paranaense, saiu do bolso e da cabeça de um punhado de particulares como ele. A estrada de ferro Paranaguá-Curitiba, obra que redesenhou a geografia econômica do Sul, teve nele um dos articuladores centrais. O porto de Paranaguá organizado como entreposto sério, idem. A União dos Fabricantes de Erva-Mate, que padronizou qualidade e preço num setor até então caótico, saiu das mãos dele. Quer dizer, o homem entregou em três décadas o que ministério nenhum teria entregue em três séculos, e a gratidão que recebeu foi uma bala de fuzil disparada por soldados a mando de autoridade republicana durante a Revolução Federalista de 1894.

Me diz uma coisa, por que assassinaram esse homem? A versão oficial fala em suspeita de simpatia pelos maragatos, em dívidas políticas mal resolvidas, em confusão de guerra civil. A versão que interessa é outra. O Barão foi executado sumariamente, sem julgamento, sem defesa, sem sequer a formalidade de uma acusação escrita, porque representava algo que a nova ordem republicana não conseguia digerir, um particular que tinha mais poder econômico organizado que o próprio Estado local e que não devia esse poder a favor de ninguém. Quando o poder político não consegue capturar o poder econômico via suborno, subsídio ou casamento de conveniência, sobra sempre a solução mais antiga do repertório humano, que é liquidar fisicamente o incômodo. É o mesmo roteiro repetido em variações infinitas desde os tempos dos publicanos romanos.

Olha, a moral dessa história é dura de engolir para quem foi educado a acreditar que riqueza privada é sempre suspeita e riqueza estatal é sempre legítima. O Paraná moderno existe porque um sujeito não pediu licença, não esperou plano diretor, não aguardou concessão graciosa. Enxergou oportunidade, mobilizou capital, correu risco e entregou resultado. Quem depois se apropriou politicamente da obra dele foram exatamente os que o mataram, e essa apropriação segue firme até hoje, disfarçada de história oficial em livros didáticos que preferem heróis fardados a empreendedores de casaca. O padrão nunca mudou. Muda o nome do barão, muda o nome do setor, muda o pretexto do fuzilamento, que hoje se chama regulação abusiva, tributação confiscatória ou operação policial midiática, mas o mecanismo é rigorosamente o mesmo.

Toda vez que alguém no Brasil constrói algo grande sem antes se ajoelhar diante do balcão certo, o retrato do Barão volta a olhar da parede com aquela expressão de quem viu esse filme antes e sabe como termina. Enquanto o país continuar tratando quem produz como suspeito e quem regulamenta como santo, seguirá exportando talento e importando miséria, e os únicos monumentos que sobrarão serão os das estátuas dos generais que mandaram atirar nos que trabalhavam.

Com informações do Instituto Liberal. A análise e opinião são do O Algoz.