Existe um ritual antigo em Wall Street que se repete com pontualidade quase litúrgica. Primeiro, uma tese sedutora aparece. Depois, os fundos empilham dinheiro nela até que ela vire consenso. Em seguida, os bancos publicam relatórios explicando por que aquilo é o futuro. E, finalmente, quando o edifício já está inclinado como a torre de Pisa, alguém do próprio banco escreve uma nota polida sugerindo, com toda a delicadeza, que os clientes "considerem diversificar". Foi exatamente esse quarto ato que o Barclays acabou de encenar. A negociação baseada em inteligência artificial, diz o banco, está "amadurecendo". Amadurecendo é a palavra que se usa quando não se quer dizer que a fruta está prestes a apodrecer.

O detalhe engraçado, porque a coisa toda tem seu quê de comédia, é que o Barclays fala como se estivesse revelando algo. Concentração excessiva em poucos ativos gera fragilidade sistêmica. Que descoberta. É o tipo de verdade que qualquer feirante da esquina intui olhando para o próprio estoque, mas que precisa ser embalada em relatório institucional de trinta páginas para virar respeitável. Quer dizer, o banco está cobrando taxa de administração para dizer aos clientes aquilo que qualquer avó com dois centavos guardados na caderneta diria de graça: não põe todo ovo na mesma cesta, meu filho.

Olha, o problema real não é a inteligência artificial. Máquinas processando dados e executando ordens são, no fundo, apenas ferramentas mais rápidas do que planilha e telefone. O problema é que, quando todo mundo usa o mesmo modelo, treinado nos mesmos dados, com os mesmos parâmetros de risco, o resultado é um rebanho digital correndo na mesma direção. E rebanho, quando espanta, atropela tudo. O que se vê é o ganho fácil das grandes techs subindo em uníssono. O que não se vê é o risco silencioso se acumulando por baixo, esperando o gatilho que ninguém consegue prever exatamente porque todo mundo está olhando para o mesmo lugar.

E aí entra a parte deliciosa da história, que é seguir o dinheiro. Quem ganhou vendendo a narrativa da revolução da IA nos últimos anos? Os mesmos bancos que agora, com cara de estadistas, aconselham cautela. Cobra-se comissão para entrar na festa e cobra-se consultoria para sair dela. É o modelo de negócio mais antigo do mundo financeiro, só que agora vestido de algoritmo. O sujeito te vende a passagem para o Titanic e depois te aluga o bote salva-vidas. Não há malícia particular nisso, apenas a natureza da coisa: instituições que vivem de fluxo precisam que o dinheiro se mova, entre ou saia, tanto faz.

A pergunta que ninguém no relatório do Barclays vai fazer é a mais importante. Por que existe concentração tão brutal em tão poucas empresas? A resposta atravessa a economia inteira. Juros artificialmente baixos por mais de uma década empurraram capital para ativos de risco, porque não sobrou lugar seguro onde estacionar poupança. Regulações que pesam sobre pequenas empresas favorecem gigantes que têm advogado para tudo. Injeção de liquidez pelos bancos centrais inflou os balanços das maiores enquanto as menores morriam sufocadas. Ou seja, a bolha de IA não é filha do mercado livre, é filha do dinheiro fabricado. E, como toda expansão de crédito artificial, terminará onde sempre terminam essas coisas: numa correção que os mesmos que causaram vão chamar de "evento inesperado".

Me diz uma coisa: quando esse ciclo virar, e ele vai virar porque todos viram, quem vai pagar a conta? Não são os bancos que emitiram os relatórios avisando com dois anos de antecedência que "talvez fosse hora de diversificar". Não são os gestores que ganharam bônus milionários enquanto o rebanho corria. Vai ser o aposentado do interior cujo fundo de previdência estava, sem que ele soubesse, empilhado nas mesmas sete ações. Vai ser o pequeno investidor que entrou na festa no último ano, seduzido pela promessa de que dessa vez era diferente. Nunca é diferente. Nunca foi. E o pior é que, quando a poeira baixar, alguém em algum púlpito vai propor mais regulação, mais controle, mais tutela, exatamente os remédios que produziram a doença. É assim que o ciclo se perpetua: com o incendiário oferecendo seus serviços de bombeiro.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.